9 de jun de 2010

Disfarce


Pendurou nas orelhas brincos de diamantes que reluziam um brilho que não tinha.

Na boca, passou um batom vermelho sangue para lhe atribuir uma sensualidade que não possuía.
Colocou uma flor nos cabelos para exalar uma primavera que não sentia.
Calçou saltos que a deixaram de um tamanho que sozinha nunca alcançaria.
No pescoço, pendurou um pingente de chave que descansava perto do coração que nunca abria.
Pintou os olhos com sombra azul cor de um céu que nunca via.
Dançou a noite toda, empunhando garrafas de vodka barata, músicas com letras em alemão cujos significados nunca saberia.
Apossou-se de um desejo de liberdade que jamais conheceria.
Queria agir como louca, meio morta, meio viva, chamar atenção pela vivacidade de seus gestos como jamais se permitiria.
Era em pessoa, em carne e osso, uma valsa de negação: ESTA NÃO SOU EU. ESTA NÃO SOU EU.

Sabrina Davanzo

2 comentários:

Laura disse...

Sem comentários!!!

Marcello disse...

O desespero de negar-se .

Muito bom.