31 de out de 2008

Modinha

Houve um tempo em que os meninos jogavam bola
As meninas usavam estola
Os jovens cheiravam cola.

Houve um tempo em que pais separados era aberração
Apertar a campainha e sair correndo era diversão
Ficar de castigo era normal para quem não fizesse a lição.

Houve um tempo das moças usarem saias rodadas
Os rapazes, calças apertadas
E os incompreendidos, jaquetas rasgadas.

E assim, de tempo em tempo o mundo se transforma.
O povo segue a tendência
mesmo que não combine com sua aparência.
Na verdade, o que importa é estar dentro do contexto
Seja ele toda uma filosofia ou só um adereço.

Sabrina Davanzo

30 de out de 2008

O tamanho das coisas


Quando a gente é pequeno, do tamanho de um pingo de chuvaTem mania de achar que o mundo é grande Do tamanho de uva.Nossa, que mundão! Se aventurar por ele só se pegar na mão.Quem pega na mão e aperta Chega ao coraçãoAí o mundo cresce Fica do tamanho do infinitoJá não se pode mais medir o tamanho que ele tem.Mas isso também não importa Não saber o tamanho do mundo Nunca fez mal a ninguém.

Sabrina Davanzo



28 de out de 2008

Caminhos

Sempre ouvi dizer que às vezes é preciso escolher um caminho.
 O problema é que a gente nunca tá pronto. Aí acaba escolhendo o caminho errado ou demorando muito na decisão.

Sem contar aqueles que simplesmente se ajeitam ali onde pararam e nunca mais seguem.
 Pior deve ser para aqueles que, por mais que tentem, não conseguem enxergar a saída.
Se o caminho escolhido não for o certo, sempre é tempo de voltar.
A estrada permite. A gente deveria se sentir mais seguro sabendo disso.
Mas voltar atrás pode parecer admitir que errou.
Às vezes, o erro parece um crime. Não deveria ser assim...
Quantos erros foram necessários para só então um avião voar?
Eu confesso que erro. Mas confesso assim.. genericamente.
E o caminho... se a gente entendesse que ele é feito de erros e acertos... Teria mais coragem de se aventurar.

Sabrina Davanzo

26 de out de 2008

Conjunto





Hoje tive uma lembrança súbita. Lembrei da minha própria existência.
Veio-me a plena consciência de que faço parte de um enorme mundo habitado por outros tão iguais e tão diferentes.
Impossível continuar olhando só para mim.
Como não enxergar ao redor onde existe tanta vida quanto dentro de mim mesma? Como não pensar que em cada um que vira uma esquina pulsa um coração com seus ritmos acertados?
Eu que sou várias, de repente me vi em cada um desses peitos arfantes que carregam dentro de si um universo de experiências, temores, sonhos.
E eu que sou dúvidas, me vi em cada um desses pensamentos.
Milhares de rostos se cruzam todos os dias e muitos nunca voltarão a se encontrar. Só aquele instante. O momento de atravessar a avenida, a entrada e a saída.
Como não captar a essência de um ser tão parecido com você, que funciona com os mesmos mecanismos...
Indiferença. Por ser indiferente ontem não notei o sorriso da velhinha que se equilibrava sobre um salto, talvez saudosa dos tempos da juventude.
Por indiferença ontem também não notei o olhar desolado da mãe que saiu para trabalhar e deixou o filho ardendo em febre em casa.
Eu. Eu que tenho os maiores problemas do mundo. Todos eles sob minhas costas tão frágeis.
Eu que sou incapaz de olhar para quanto peso há nas costas dos meus semelhantes. Hoje me dei conta da nossa fragilidade.
Senti vontade de gritar no meio da calçada que eu não sou melhor que ninguém. Queria poder abraçar todos, inclusive a mulher mal vestida e suja que espera esmola no sinal.
"Pode me dar uma moeda?" Acha-se ela digna somente dos restos?
Não merece a mesma parte que me cabe, uma mulher tão igual a mim?
Observando as pessoas vejo que tenho um pouco de cada uma delas, e quanto mais tento ser eu mesma, mais me distancio dessas tantas outras que me dão forma.
Não quero ser indiferente. Quero me reconhecer em cada rosto no meio da multidão. Quero ter a certeza de que caminho entre seres tão humanos quanto eu mesma apesar de, na maioria das vezes, agir por um instinto quase animal.

Sabrina Davanzo




Dicionário

Saudade sempre dá quando se olha para trás e pensa no que não volta mais. Ou se volta, vem diferente. Nunca mais é como antes. Nunca mais é aquele mesmo instante. Saudade do sorriso da melhor amiga que, mesmo que ainda esteja por perto, o sorriso já mudou. Fez clareamento, usou aparelho, o dente que era torto, endireitou.
Saudade de agir inocentemente, sem pensar.
Inocência. Palavra pura que só existe na infância. Não combina com gente grande.
Só a saudade... saudade de não ter malícia, não enxergar a maldade.
O tempo voa e enquanto se vive é preciso segurar em sua mão e ir deixando tudo. É daí que nasce a ausência.
Ausência. Palavra que dói. É um não estar que fica na memória lembrando que um dia existiu.
Existência. Por causa dela se descobre o dicionário.
Saudade.. pés descalços no quintal.
De repente, você está diferente. Saudade de ser aquele outro alguém que você já foi algum dia.
Solidão. Olhar para dentro e não encontrar nem a sua companhia.
Solidão é palavra que ninguém queria. Provoca dor na alma. Difícil de sarar. Difícil se acostumar.

Sabrina Davanzo

23 de out de 2008

Salto a superfície


Às vezes, sinto-me em águas infinitamente profundas.
Sinto o calor do sol aquecendo as ondas e vejo o jogo de cores que se forma no espelho d’água. São momentos de indizível beleza.
Olho ao meu redor e vejo todos ocupados com suas respirações e nados sincronizados.
Se ao menos eu me destacasse. Se eu pudesse mostrar que por trás de escamas tenho sentimentos e emoções...
Mas afinal, as escamas são necessárias para lidar com a correnteza. Não convém expô-las.
Aquele que faz uso da expressão “peixe fora d’água”, não compreende quão mais difícil é se adaptar às profundezas.
Quem me dera ser digna da superfície, subir à tona e respirar ar puro até que o cansaço tome meu corpo.
Aqui embaixo é tudo tão denso.
Talvez por medo, atenho-me a minha humilde existência. Sei que cabe só a mim lutar para que o ar entre, ainda que exausto, pelos meus pulmões e chegue a cada recôndito canto de minha existência.
Admiro aqueles que têm coragem de saltar. Mas não me iludo.. sei que não são heróis e sim meros desesperados que sucumbiram diante de suas provações no mar de possibilidades que é a vida.


Sabrina Davanzo


21 de out de 2008

Flor menina

Todos os dias ela saia para ver a flor.
Era um olhar tão profundo. Olhar de mãe que vê o filho crescer.
Depois, lentamente, entrava toda para dentro de si e ficava em silêncio.
Ela procurava a textura da flor dentro dela. Em algum lugar deveria existir aquela maciez.
Ela se sentia dura com a vida. Não chegava a ter pena de si mesma, apenas sentia não sentir.
Olhava seu reflexo e não se via. Isso é possível?
Ela dizia que não refletia nem em pensamento, nem em fisionomia.
Por isso, a flor. Textura que vem com beleza e reflexão.
Só não é possível alcançar seu cheiro. E de nada adianta os perfumes, soariam artificiais.
Deve ter a ver com a terra ou algo sobre ser criado por Deus. Ela procura a simplicidade de ser nas coisas criada por ele. Ela imagina que se igualando a flor talvez se aproxime um pouco mais daquele que criou as duas sem nenhuma distinção.


Sabrina Davanzo

20 de out de 2008

Manual da vida

Tem gente que tem mania de pensar na vida. Fica ali com aquela carinha de paisagem, quadro na sala de estar.
Será que a vida foi feita pra se pensar ou simplismente se viver?
Eu, quando penso na vida, dói tanto. Não é fácil pra mim. É muito tempo, muito acontecimento.
Onde se compra um manual de como se viver? Tem um capítulo especial sobre como não magoar as pessoas que a gente ama? E outro sobre como ter sempre por perto aqueles que teimam em não estar?
Imagino que um sobre a infância é muito importante. Um capítulo com cheiro de tuti-fruti.
A vida é boa... mas dá medo. Tem que respirar fundo, contar até três e ir correndo de olhos fechados. Quando se pára para olhar, pode ser difícil seguir.
Ainda bem que existem os sonhos. É bom fugir da realidade de vez em quando.

Sabrina Davanzo


Sobre bolinhas e quadrados


Durante a madrugada eu acordaria e colocaria uma saia rodada de bolinhas bem pequenas, calçaria um sapato boneca e sairia pelas ruas de paralelepípedo onde cada pé pudesse pisar firme um a um os blocos de pedra. Andando assim, os que ainda estivessem àquela hora acordados achariam que eu estava fazendo uma espécie de coreografia.
Passo a passo, eu cantaria bem baixinho para não incomodar os que já estivessem sonhando. Fecharia meus olhos e cantaria por dentro. Só as notas mais graves resistiriam e, saindo de mim, se misturariam ao hálito embriagado da madrugada.
Eu me permitiria abrir os braços e olhar as estrelas. Adoraria se encontrasse um cachorrinho tão sem dono quanto eu naquele momento. Eu o acariciaria e o convidaria para caminharmos juntos sobre as pedras tão perfeitamente quadradas. Eu sentiria seu roçar em minha saia confundindo as bolinhas.
Poderia até chover. Cada gota seria bem-vinda. Se você estivesse ali, veria que eu estaria sorrindo. Sorriso com gosto de chuva. Poro a poro se encharcando. Não faria frio. Tudo seria quente e bom. Até a música que insistia em embalar o tecido da minha saia. Se me perguntassem, era assim que eu definiria o que é a felicidade ao som de uma canção que sempre diria “we will take you home...”

Sabrina Davanzo

Como o vento

Aos pouco, ela vai aceitando a idéia de ser o que se tornou.
Levou anos, mas até hoje quando se olha parece que toda essa transformação se deu em alguns minutos. Tudo soa tão novo e assustador.
Para tentar se acostumar, ela gosta de andar olhando para cima. Assim é possível enxergar os galhos das árvores. Gosta de reparar como o vento toca as folhas e leva um pouco de suas impressões embora.
Para onde vai o vento? O que faz ele com todos os cheiros, sabores e cores que toca? Divide ele com alguém essas experiências?
No fundo, ela se sente um pouco vento. Tem acesso aos mais variados sentimentos, fatos e pessoas, mas não retém nada para si. Não sabe como conservar suas emoções.
Deveria guardá-las em uma caixa de madeira com um cadeado dourado? Não. Correria o risco de perder as chaves e deixar tudo ali dentro para sempre. É difícil saber o que fazer quando se está diante da vida. Ainda mais quando não se é permitido experimentar. Pensou nessa possibilidade, pronto: Já se viveu.
Por isso, o vento se parece tão perdido. Está em toda parte, sem de fato estar em um só lugar. Faz redemoinhos, exalta-se. Sábios são aqueles que conseguem guardar dentro de si o valor de todas as sensações. Aqueles que fecham os olhos e conseguem descrever o significado de pisar descalço na terra, o cheiro de se deitar no capim.
Ela só sabe falar de chão vermelho e velhos colchões. Mas ela não desiste. Não perde a doçura de assim como o vento, tocar tudo que está ao seu alcance.

Sabrina Davanzo

Ai

Ai, que hoje estou com pressa. Pressa de mim mesma. Há quanto tempo não me vejo? Lembrei agora da caixinha de música. O que faz a bailarina até que a ponham para dançar? Estaria o cheiro da caixa a entediar? Ai, que hoje me senti um noivo apaixonado à espera no altar. “E essa felicidade que não chega... quanto tempo ainda hei de esperar?” Ah, lembrei também dos relógios. Bem na hora que a corda está para acabar. Sente ele o seu próprio fim? Consegue não se desesperar? Penso que a pressa e a vontade empurram o caminhar. Ai, que hoje vi que a música não pára. É constante. Quem me dera ser música. Há quanto tempo sou apenas nota que não sai do lugar?

Sabrina Davanzo

19 de out de 2008

Balão





Ela tremia toda segurando a linha entre os dedos magros. Ao final da linha, lá em cima, um balão vermelho.
Andando pela calçada, levando aquele objeto delicado, ela era alvo de olhares furtivos. Afinal, ninguém assume um balão além das crianças e dos vendedores. Mas isso não a incomodava. Pelo contrário, essa atitude esperada das pessoas era o que a fazia sentir-se diferente, corajosa, superior.
Parou em plena avenida movimentada. Ruídos de carros, barulho de vida. Sim, porque se faz muito barulho enquanto se vive. Foi então que ali, no meio da avenida, sentiu a linha frágil escapar-lhe pelos dedos. O balão tomou altura, subiu.
Lá de baixo ela o via se misturar aos outdoors, aos fios da companhia elétrica. Tão cheio de sopro aquele balão… os balões são feitos do sopro que extraímos de dentro da gente. E aquele balão vermelho ia ganhando altura com o sopro dela. Se afastando, levava o que fazia a diferença na menina. Ela que usava balão do lado de fora.
Quando ele sumiu de vista, ela se pôs a caminhar encurvada. Não saberia ser sem ele nas mãos. Sentia-se envergonhada por não ter mais o balão que é sopro, ar. Ainda mais vermelho. Vermelho que é vida, sangue na veia. Sem ar a gente não vive.
A vida é feita de sopro que entra e sai e sangue que corre. É como se dentro da gente existissem milhares de balões vermelhos. A gente sente quando um ganha altura e se vai. Quando isso acontece a gente perde o ar, perde a cor.
Quando isso acontece é preciso um tempo para retomar o ritmo e a respiração. É difícil voltar ao normal quando se perde um balão.

Sabrina Davanzo





Auto-retrato





Principezinho subiu o morro e viu o mundo. Contemplou, ao longe, toda a vastidão do que acontece lá fora. Descobriu que a felicidade não é colorida como os quadros da sala de estar. Ela desbota, envelhece e mancha.
Principezinho voltou. O colo da mamãe é mais seguro. De lá, tudo é mais bonito. Não há monstros para enfrentar.
Principezinho acha que o tempo será generoso com ele e, por isso, adia o confronto. Só mais um dia...
Assim, no seu mundo lúdico, o peso é como algodão-doce, a dor sara com um sopro e a ameaça é só uma sombra na parede do quarto.
Ah, Principezinho! A vida é tão mais vasta que esse seu carrossel. O seu dinamismo vai além do sobe-e-desce da roda-gigante. Para ser feliz, é preciso muito mais que velhos homens fantasiados de palhaço. E para estar seguro não basta se trancar dentro do guarda-roupas ou se esconder debaixo da cama.
O que seus olhos viram, seus pés ainda não percorreram. Há outros tipos de toque além do da mamãe. Existem mais cheiros que o de chocolate quente com biscoito. E as brincadeiras são mais reais do outro lado.
Doce menino, o morro é menos ameaçador do que parece. Ele nem se compara aos vilões dos quadrinhos. Mas para transpô-lo, é preciso ter a grandeza dos gigantes e a coragem dos super-heróis.

Sabrina Davanzo