20 de out de 2008

Como o vento

Aos pouco, ela vai aceitando a idéia de ser o que se tornou.
Levou anos, mas até hoje quando se olha parece que toda essa transformação se deu em alguns minutos. Tudo soa tão novo e assustador.
Para tentar se acostumar, ela gosta de andar olhando para cima. Assim é possível enxergar os galhos das árvores. Gosta de reparar como o vento toca as folhas e leva um pouco de suas impressões embora.
Para onde vai o vento? O que faz ele com todos os cheiros, sabores e cores que toca? Divide ele com alguém essas experiências?
No fundo, ela se sente um pouco vento. Tem acesso aos mais variados sentimentos, fatos e pessoas, mas não retém nada para si. Não sabe como conservar suas emoções.
Deveria guardá-las em uma caixa de madeira com um cadeado dourado? Não. Correria o risco de perder as chaves e deixar tudo ali dentro para sempre. É difícil saber o que fazer quando se está diante da vida. Ainda mais quando não se é permitido experimentar. Pensou nessa possibilidade, pronto: Já se viveu.
Por isso, o vento se parece tão perdido. Está em toda parte, sem de fato estar em um só lugar. Faz redemoinhos, exalta-se. Sábios são aqueles que conseguem guardar dentro de si o valor de todas as sensações. Aqueles que fecham os olhos e conseguem descrever o significado de pisar descalço na terra, o cheiro de se deitar no capim.
Ela só sabe falar de chão vermelho e velhos colchões. Mas ela não desiste. Não perde a doçura de assim como o vento, tocar tudo que está ao seu alcance.

Sabrina Davanzo

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