20 de out de 2008

Sobre bolinhas e quadrados


Durante a madrugada eu acordaria e colocaria uma saia rodada de bolinhas bem pequenas, calçaria um sapato boneca e sairia pelas ruas de paralelepípedo onde cada pé pudesse pisar firme um a um os blocos de pedra. Andando assim, os que ainda estivessem àquela hora acordados achariam que eu estava fazendo uma espécie de coreografia.
Passo a passo, eu cantaria bem baixinho para não incomodar os que já estivessem sonhando. Fecharia meus olhos e cantaria por dentro. Só as notas mais graves resistiriam e, saindo de mim, se misturariam ao hálito embriagado da madrugada.
Eu me permitiria abrir os braços e olhar as estrelas. Adoraria se encontrasse um cachorrinho tão sem dono quanto eu naquele momento. Eu o acariciaria e o convidaria para caminharmos juntos sobre as pedras tão perfeitamente quadradas. Eu sentiria seu roçar em minha saia confundindo as bolinhas.
Poderia até chover. Cada gota seria bem-vinda. Se você estivesse ali, veria que eu estaria sorrindo. Sorriso com gosto de chuva. Poro a poro se encharcando. Não faria frio. Tudo seria quente e bom. Até a música que insistia em embalar o tecido da minha saia. Se me perguntassem, era assim que eu definiria o que é a felicidade ao som de uma canção que sempre diria “we will take you home...”

Sabrina Davanzo

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