30 de jul de 2009

Alice



Eu me recuso a enxergar esse mundo cinza, poluído, com pouco rio para nadar, com cada vez menos árvores para me proteger do sol e menos ainda comida nas mesas.
Eu me recuso a acreditar que um pai não tem tempo de ver seu filho crescer porque está ocupado ganhando dinheiro e comprando apartamento de um milhão.
Hoje eu não quero ouvir sobre o castelo do político. Se for para falar de castelo, que seja sobre os construídos na areia, de brincadeira.
Hoje eu não quero saber se uma bomba explodiu no Iraque, porque isso simplesmente não deveria acontecer: mais que um atentado a um pedaço de terra e algumas vidas, esse ato é um atentado a felicidade do mundo.
Não me faça entender como um lugar tão grande como nosso planeta não tem casa para acolher todas as famílias, fazendo com que algumas delas tenham que morar nas ruas. Será que Deus errou nos cálculos? Ou foi a ganância que ocupou mais espaço? Nem me lembre dos cobertores de jornal dessas famílias. Só me mostre as tirinhas engraçadas e as palavras cruzadas.

Não me peça para imaginar chuvas que inundam casas e destroem tudo... só consigo imaginar chuva de bênçãos sobre cada cabeça cansada de tanta luta.

Ainda teimo em notar a diferença nas cores do céu, no por do sol e nunca na pele das pessoas que me cercam.

Hoje eu quero recolher todos os cachorros abandonados e coloca-los em casinhas de madeira confortáveis.

Quanto as crianças abandonadas, levarei todas para o parque de diversões, de onde nunca deveriam ter saído. Deverão manter um sorriso no rosto, enquanto forem apenas crianças nunca saberão o que é trabalho.
Não, eu não vou ligar a TV para assistir jornalismo sensacionalista e estúpido. Ao invés disso, vou confiar nos cientistas inteligentes e cultos que buscam a cura das doenças, alivio para as almas.
Eu prefiro a utopia. Estou de mudança para o Pais das Maravilhas. Quero voar com Peter Pan, viver na Terra do Nunca. Vou organizar uma revolução industrial nas fábricas de chocolate.

Há quem diga que fujo da realidade, mas me diga: Você QUER continuar vivendo aqui? Esperando ansiosamente que, ao sair de manhã, você volte seguro para a casa? Desejando que não seja hoje o dia em que aquele cara vai cruzar seu destino e levar sua carteira, sua identidade e talvez sua vida?

Estou cansada de agradecer por mais um dia “sobrevivido”, enquanto alguém cai no chão para nunca mais se levantar vitima de uma bala perdida.
Definitivamente, eu queria que o mundo fosse o meu quintal e não meu cantinho do castigo.

Ps: Será que esse mundo ainda tem jeito? Será que ainda dá tempo de fazer alguma coisa?


Sabrina Davanzo


4 comentários:

Clara Gontijo disse...

"queria que o mundo fosse o meu quintal e não meu cantinho do castigo." ai que coisa mais linda! Amei!

Renata de Aragão Lopes disse...

A ganância,
realmente,
apoderou-se de tudo.

Se o mundo ainda tem jeito?
Quero crer que sim...
E, sendo assim,
que cada um nós
pense coletivamente
a cada mínima decisão diária.

Um beijo,
Sabrina querida!

Rodolfo disse...

Verdadeiro, fantástico, mas cruel...

Ótima receita para o amargo existencial: caramelo, biscoito, chocolate.

Abração!

RivaEscrita disse...

Acho que tem jeito não. E a poesia já não tá ajudando muito. Infelizmente. Abraços. Vamos continuar sonhando?