31 de ago de 2010

Rotina

Todos os dias eu nasço e morro. Nasço e morro. Nasço e morro num infinito ritual.
Nasço e morro. Nasço e morro que é para me desfazer do que não valeu a pena, do que não foi completo. Nasço e morro para experimentar o novo.
Nasço e morro numa suave rotina de me deixar ir e voltar sempre outra, outra... Outra que me faz ser eu.
Se não gosto da que sou hoje, não faz mal. Amanhã já não serei. Inconstante diante do meu próprio eu. E é assim que eu aprendo: na marra! Nascer e morrer todos os dias.
Hoje nasci meio sonhadora, mas já passa da hora de enterrar-me. Amanhã devo nascer mais sedutora que é para atrair mais vida e dar tempo de realizar tudo o que eu quero.
Depois é morrer. Nascer. Morrer. Nascer até o infinito. Sempre. Nunca a mesma.

Sabrina Davanzo

29 de ago de 2010

Des-ocupado



Há uma certa beleza no vazio quando se imagina que alguém pode chegar a qualquer momento e preenchê-lo. O vazio é antes de mais nada um esgotar-se para recomeçar. É ceder um lugar.

Sabrina Davanzo


Uma canção



Vez em quando põe pra tocar a sua música favorita e cala-se. É que está fazendo uma viagem no tempo e a melodia é a nave que o conduz.

Sabrina Davanzo


Bom dia



Bom dia é abrir os olhos preguiçosos bem cedinho e se deparar com um sorriso doce que cobre você de carinho.

Sabrina Davanzo


26 de ago de 2010

Questionário

Todos os dias, ao levantar, a gente deveria responder um questionário que serviria para nos lembrar o que é importante em nossas vidas e pelo o que nós precisamos continuar lutando.
O meu seria assim:

- Quem sou eu?
- O que me faz feliz?
- Quais são os meus sonhos?
- Qual deles eu gostaria que se realizasse no dia de hoje?
- Quem é o meu melhor amigo?
- Pelo o que/por quem eu daria a minha vida?
- Quem é o meu maior exemplo?
- Quais palavras eu gostaria de ouvir hoje?

Sabrina Davanzo

23 de ago de 2010

Cortina

Quando eu tinha uns seis anos e dormia no quarto da minha avó, uma cortina bege com uns raminhos verdes bem pequenos me fazia perder o sono. No meio da noite, olhava para a cortina refletindo a luz que vinha do poste na rua e tinha a sensação de que os raminhos se transformavam em seres minúsculo que ficavam construindo alguma coisa, descendo e subindo o tempo todo pelo tecido.
Parecendo macaquinhos atarefados, os movimentos na cortina me davam muito medo e, por isso, eu acordava todo mundo e fazia com que acendessem a luz.
Hoje eu penso nessa história e fico imaginado se a vida tem um pouco disso. Para que cada coisa aconteça, e sem que a gente saiba, Deus espera o nosso sono para, por trás da cortina que guarda o nosso destino, construir novas histórias. E os anjos ficam lá, trabalhando incessantemente para que tudo saia como tem de ser. Se você é criança e tem muita imaginação, consegue enxergar esses operários no corre corre.
Hoje essa cortina não está lá, mas aposto que se estivesse eu não veria nada além de raminhos verdes. Não sei se é porque quando a gente cresce as coisas ficam mais reais ou se é porque Deus está cada vez mais ocupado com outras coisas.

Sabrina Davanzo

O segredo...

Uma coisa que tenho aprendido é que felicidade não é algo que se busca. Ninguém deve sair correndo tentando ser feliz.
Quantos jantares ficaram intactos por conta de uma felicidade programada para aquela noite? Quantas passagens reservadas e perdidas? Quantas roupas compradas e não usadas? Quantos discursos preparados para quando ela chegasse? A frustração é mãe impiedosa de toda felicidade abortada e nos faz companhia quando queremos ser feliz a qualquer custo.
O negócio é levar a sério aquela velha e linda história de não correr atrás das borboletas....
Acho que o que a gente deve fazer é deixar a porta do coração aberta, seguir em frente, em paz, e então a felicidade acontece, nos alcança onde quer que estejamos.
A felicidade é uma brisa leve que nos toca em meio às coisas mais banais. É inútil programá-la para o fim de semana, para o dia do pagamento, para quando o telefone tocar.


Para amigos e amigas que, nesse momento, esperam ansiosamente pela felicidade.

Sabrina Davanzo




22 de ago de 2010

Travessia


E numa noite escura e sem lua, ela se viu dentro de um barco miserável, conduzido por um senhor que o guiava em meio as águas turvas e sonolentas. Nem uma estrela, nenhum sinal de vida além dos dois, apenas a imensidão.
Desesperada, ela gritava com o senhor exigindo que voltassem:
-Tenho medo, não vês? Estou apavorada! Nunca vi tanta escuridão. Estou sozinha. Volte! Volte!
Ele pediu que tivesse calma. Certamente chegariam a algum lugar e ele estava ali. Tinha experiência naquela travessia, conduziria-a com segurança.
Quanto mais a noite avançava, mais medo ela sentia. Quase podia tocar a negritude de tão densa, o que lhe causava arrepios. O barco deslizava devagar, dando a impressão de estar parado naquele deserto de água por todos os lados. A respiração dela tinha um ritmo acelerado e então insistiu com o senhor:
- Por favor, tire-me daqui! Estou sufocada... não gosto desse lugar!
Ele tentou confortá-la explicando que era exatamente o que fazia ao comando do barco. Estava tirando-a dali. Sugeriu que ela dormisse e lhe prometeu que ao despertar a paisagem seria diferente.
Ela respondeu que nunca conseguiria dormir naquele estado e que ficar acordada também era ruim. Ameaçou pular do barco. O velho a olhou com bondade e sussurrou como que para si mesmo que na água gelada sua frustração e desespero seriam ainda pior..."Por que eles não enxergam? Por que não entendem?" Resmungou olhando para o céu.
Ela nem sabe quanto tempo passou lutando contra aquela noite assustadora e parada, mas, de tanto pelejar, acabou ficando exausta e adormeceu. Foi um sono sem sonhos, pesado.
Ao despertar, percebeu os primeiros raios de sol aquecendo seu rosto, inchado de tanto chorar.
Abriu os olhos timidamente e notou o pequeno barco ancorado. Olhou ao seu redor e o que via era algo parecido com um paraíso. Cores, aves, terra firme, flores, cheiros, formas. Uma explosão de beleza, delicadeza e felicidade por toda a parte.
Olhou para o velho que havia velado seu sono e sorriu sem entender como tudo aquilo era possível.
Sem esperar que ela lhe dirigisse uma palavra, com bondade, lhe respondeu:
- Às vezes precisamos atravessar horas, meses, anos de escuridão para chegar ao nosso verdadeiro destino. É preciso ter paciência e confiar no tempo. Nada dura para sempre. Se tem uma coisa que é certa nesta vida é que todos os dias, depois de uma longa noite sem luz, o sol aparece para iluminar e aquecer. Não há o que fazer a não ser esperar.

Sabrina Davanzo

20 de ago de 2010

Novo!


O blog está de cara nova. Presente do meu amigo designer João Célio.
Espero que gostem. Obrigada pelo carinho de sempre.

Bjos!

Tks, Jones!
I like it! So much! =D

Sabrina Davanzo

19 de ago de 2010

Listas


Ela tinha tantos projetos que anotava-os para não esquecer nenhum.
Em sua lista de prioridades, a vontade de acreditar que todo resto era possível vinha em primeiro lugar.

Sabrina Davanzo

17 de ago de 2010

Monstro



O melhor amigo de Sofia era um monstro que vivia embaixo da sua cama, junto com a poeira e um pé de meia esquecido. A amizade começou quando, numa noite, ele saiu para assustá-la e a encontrou chorando com a TV ligada para espantar a escuridão.

Sabrina Davanzo





Antônimos



Ela que era noite,
resolveu ser dia
Em vez de chorar,
sorria
Em vez de gritar,
pedia
No lugar da revolta,
cedia
No lugar da reclamação,
compreensão
E, para quem nunca estava disposta,
diversão
Para fazer tudo diferente,
preferiu os antônimos aos sinônimos
nada de letargia, monotonia, empatia
Sua vida ganhou novas cores
e seu coração,
mais amores

Sabrina Davanzo




12 de ago de 2010

Caixa de entrada

Recebi seu email, amiga, e devo confessar que também me deu saudade daquela época. Quando bastava um astro do rock pra nos fazer felizes. Quando o presente era muito mais importante que o passado. E que o futuro... Tínhamos a eternidade como nosso futuro! As assombrações da meia-noite não vinham perturbar e o dia não era tão pesado quanto é agora.
Quando foi que deixamos de nos divertir? Quando foi que tudo deixou de ser prazer e se tornou uma eterna e intransponível obrigação? Quando foi que deixamos de ter tempo para nós mesmas e para nossos amigos tão queridos?
Tantos queridos estranhos em nossas vidas agora... Estranhos que acabam tomando tamanha importância, que às vezes chego a ficar com medo da presença deles.
Lembra do lançamento do Titanic no cinema? Tivemos tempo de sobra para irmos assistir o mesmo filme com final deprimente 20 vezes! Tínhamos tempo de comprar os presentes mais absurdos de aniversário uma para a outra. Procurávamos interminavelmente. E como era bom! Era como se fôssemos ter aquele tempo pra sempre. E, de certa forma, tivemos. Algo que nunca vai passar, nunca sairá das nossas lembranças. Sonhos que continuam bem vivos.
Naquela música que você falou, o Bon Jovi diz que em algum lugar alguém está sonhando ("Somewhere someone's dreaming"). E acho que é nisso que devemos nos prender, amiga. Nos sonhos. Naqueles sonhos que dependem só da gente. Naqueles em que acreditamos de verdade. Naqueles em que nada é impossível. Nos sonhos inocentes e, mesmo assim, tão reais. Naqueles sonhos que sonhamos acordadas pouco antes da meia-noite chegar.
Não fique triste pela meia-noite que se fez em seu coração, amiga. A meia-noite pode trazer lembranças ruins, pode tirar seu sono, pode até dar medo. Mas é bom pensar que depois dela um dia novo começa e que a dor acaba passando.
Dói tanto porque a gente deixa doer e porque foi importante pra gente. Dói tanto porque, como sempre em sua vida, você se doou. E, se por um lado é triste pensar que dói tanto, pelo outro é bom saber que parte da sua doação vai se transformar numa sementinha plantada no outro, nos outros. Uma sementinha de esperança plantada neste mundo tão injusto às vezes.
Sei que tem sido difícil arrumar tempo pra nos encontrarmos, amiga. Como o Bon Jovi fala na música, eu queria estar lá pra cantar essa música (wish that I was there to sing this song). Queria estar aí ao seu lado agora, amiga, pra te dizer que sua meia-noite vai passar. Mas, quem sabe não conseguimos marcar aquele dia para lembrarmos de dias mais felizes, quando eram três da tarde em plena meia-noite? Vai ser bom rir ao seu lado de novo, deixar sua presença iluminar o ambiente.
Amanhã te ligo, amiga, e combinamos algo pro fim de semana. Quem sabe já não compramos o ingresso para o show?

Carol (por e-mail)

11 de ago de 2010

Midnight in Chelsea


Midnight in Chelsea: http://www.youtube.com/watch?v=qtXCxjbBKks


Amiga, não sei porque hoje me deu vontade de ouvir Bon Jovi...
Um dos últimos clipes dele que me lembro de ter visto o lançamento foi Midnight in Chelsea. Coloquei para tocar. Não sei muito bem o que essa música fala a não ser que é meia-noite em Chelsea... também sei que ela combina comigo. É meia-noite em mim, amiga. É a hora do desespero, a hora que a mente pensa o que o corpo lutou o dia inteiro para não lembrar. É a hora que as assombrações escolhem para nos assustar.

Que saudade da nossa época, amiga. Ver o Bon Jovi no Programa Livre e dormir em paz, à meia-noite. Como eram tranquilas as nossas noites, nossos dias. Nem de longe se pareciam com a tristeza da música que ouço agora, muito menos com a que se instalou dentro de mim.
Será que um dia voltaremos a ter essa liberdade adolescente dentro da gente? Será que um deixaremos de nos preocupar com o passar das horas?
Queria que você estivesse aqui agora. Queria que estivéssemos em um outro tempo.
Em alguma parte da música ele fala sobre “kiss good-bye”... É meia-noite, amiga. Já não existem mais beijos, muito menos de adeus... Por que é que dói tanto? A música diz que “leva um tempo para se acostumar” (Takes a little bit of getting used to), pelo menos em Chelsea é assim. Ah, se eu pudesse me mudar para lá, amiga! Onde quer que seja esse lugar... se eu pudesse sair daqui e começar a respirar de novo... porque aqui é sempre meia-noite e faltar ar.
A gente já não tem mais aquela turma, amiga! A gente mal pode contar uma com a outra, mas eu sei que nós tentamos. Entre um cansaço e outro... mesmo longe, tentamos estar perto.
Eu estou procurando sobreviver por mim mesma, como na música (she's holdin' on to her own hand)... leva um tempo até eu me acostumar.

Vamos marcar um dia para nos encontrarmos e ouvirmos todas as canções que embalaram os dias mais felizes das nossas vidas. Vamos rever nossas velhas gravuras de astros do rock, do cinema. Vamos assistir aos nossos filmes preferidos. Vamos tentar reviver o passado ou pelo menos provar que ele não sufoca.
É engraçado o modo como a vida flui... Aqui estamos nós, vivendo numa cidade estranha, ao lado de pessoas estranhas. Cada uma fazendo a sua história, levando seus tombos. Hoje fui em quem caí, amiga. É meia-noite em mim e preciso da sua mão para me levantar.
E a vida não para... “nasce um bebê, morre um velho”... (Baby's born an old man dies) nós continuamos seguindo. Quem sabe para onde? Seria para Chelsea? Será que lá é sempre meia-noite?
Na nossa época tudo parecia eterno e eu gostava de pensar assim. Já imaginou que um dia não estaremos mais aqui? O que é que vamos deixar? Quem vai pensar em nós? Quem vai sorrir ao lembrar das nossas manias, amiga?
É meia-noite em mim e é nisso que estou pensando agora. Será que um pedaço de nós fica para sempre em alguém? Eu espero que sim, amiga. Eu desejo que sim.
Então é isso... preciso dormir... preciso sonhar... Nem que seja com um tempo que não volta mais.
Saudades do Bon Jovi visitando o Brasil... Ouvi dizer que ele vem aí.. vamos ao show? Pelos nossos bons momentos...

“takes a little bit of getting used to... It's morning when I go to sleep...”


Texto enviado por e-mail para minha amiga Carol


Sabrina Davanzo



6 de ago de 2010

Era vidro...



Não consigo escrever nada sobre ter acabado o encanto porque foi só isso: acabou o encanto. Simples assim. Como quando se apaga a luz, ou acaba de tocar sua música preferida. Como quando você come o último pedaço de chocolate ou desliga o chuveiro depois de um banho quente. Como quando o sol se põe depois de um dia de verão ou termina o passeio na roda gigante. Era doce... e se acabou...


Sabrina Davanzo

5 de ago de 2010

Decepção



Onda violenta que arrasta, bem diante dos nossos olhos e sem piedade, o castelo de sonhos que existe dentro da gente.

Sabrina Davanzo



4 de ago de 2010

Corpo


Tenho olhos. Posso vê-los em meu rosto diante do espelho, mas eles não me veem.
Não conseguem perceber que preciso buscar outro horizonte.
De que adianta serem verdes se só refletem o vazio cinza que trago no coração?
De que adianta serem arregalados se só quero mantê-los fechados para não ter que enxergar a situação?

Tenho pés. Posso vê-los diante do espelho, mas é como se eles não existissem. Perderam a força, não podem sair do lugar. Não obedecem ao comando do meu cérebro. É estranho! Tenho um corpo que não me compreende e luta contra minha vontade.

Sabrina Davanzo

3 de ago de 2010

Insônia


É noite e minha cabeça funciona como se estivesse, ao meio dia, no cruzamento de duas avenidas movimentadas.

Sabrina Davanzo

2 de ago de 2010

Intempéries



Aconteceu um terremoto dentro de mim que tirou tudo do lugar.
Preciso começar do zero. Preciso reerguer minhas estruturas, quem sabe do jeito certo agora.

Não é fácil ter atitude depois de um abalo dessa proporção. Necessito de toneladas de doações não perecíveis como paciência e amor.
Estou deitada, sem forças, nos escombros, mas antes lembrei de riscar no chão a sigla SOS (sempre funciona nos filmes) na esperança de passar alguém que se compadeça de mim e me ofereça ajuda humanitária.

Sabrina Davanzo