4 de nov de 2008

Na ponta dos pés



Às vezes a gente precisa se pendurar na pontinha do pé para chegar mais alto. Chegar naturalmente, sem a ajuda do salto.
Uns centímetros a mais é capaz de nos livrar da derrota, de mudar um destino. Não importa se o pé dói, a gente acostuma. Não importa se o desequilíbrio ameaça, mais cedo ou mais tarde a gente encontra o ponto.
É levantando o pé que se pega a fruta, que se enxerga na multidão. É na pontinha do pé os passos mais lindos do ballet, é com esse esforço que se alcança um abraço maior que a gente. Na euforia, é levantando o pé para o ar que a gente se exalta.
Quem cala tem os pés plantados no chão. O peso não deixa a gente se arriscar e quem não arrisca não sabe o que é chegar ao alto. Acaba trocando os pés pelas mãos. Usa o tato para caminhar entre o desconhecido.
Foi impulsionando os pés que muita gente caminhou por onde não imaginava, alcançou o que procurava.
Que Deus me permita ter pés que eu mesma possa guiar e não que eles sejam simplesmente levados. Não quero manter meu calcanhar grudado à textura confortável do sapato, maldita acomodação.
Aquele que busca o óbvio se garante, mas não vive. Quero ter a força necessária para caminhar na ponta dos pés, lá em cima, onde aos mãos não alcançam, onde os olhos não enxergam, onde só o momento da chegada revela o que existe. Não quero temer a insegurança. Ela faz parte da vida, ao contrário do pé no chão, que denota o significado de uma mera existência.

Sabrina Davanzo

4 comentários:

Clara Gontijo disse...

e dá para pegar um atalho no salto alto de vez enquando?
Será que "sapatinhos boneca " são uma desculpa para se ficar mais na ponta dos pés?
Lindo texto Sabrina! como sempe.

pontinha!

Laura disse...

Ficar na pontinha dos pés... assim a gente dança, se liberta, se sente leve! Tocar menos o chão e alcançar outras possibilidades.. Concordo com a Clara, como sempre seus textos são lindos e quase podemos ver o que você escreve em um pequeno filme... Beijos

Evandro disse...

Depois te mostro uma ilustracao que retrata muito bem o seu texto.

Family disse...

Nem sei se ele se encaixa para mim...
Nem sei!