17 de jan de 2011

Casa nova



Enquanto um sol preguiçoso despontava no céu, eu descia para comprar pão pensando no quanto eu tenho mudado.
Nem lembro quando foi que comecei a me negar, só sei que agora recebi uma ordem de despejo.Estou sendo obrigada a sair do lugar.
É espantoso ver que coisas imutáveis estão indo embora, assim como todos os personagens do meu mundo imaginário que, um a um, estão se despedindo.
Chego a pensar que até esse espaço aqui já não faz parte de mim, tão irreconhecível tenho estado diante do meu reflexo.
A mudança começou discreta, quase como quando se coloca um vazo de flor a mais na janela.
Depois, foi ficando intensa. Foi necessário estacionar na porta do coração uma caçamba para levar todo o entulho, jogar fora os excessos que só causavam falta de ar.
Quanta coisa já não me serve mais... Como eu gostava de me apegar à imagens mal coladas.
Ainda continua tudo fora de ordem. Há muito chão para limpar...
Participo, consciente e satisfeita, de todo esse processo. Observo tudo que deve ser trocado, descartado, recolocado.
Estava mesmo precisando dessa reforma para viver mais leve, ser mais eu. Meu sorriso havia se acostumado à tanta culpa que já não era verdadeiro.
A cadeira em que passei tempo demais apoiada, lamentando, não está mais aqui e eu ando sem parar para colocar tudo no lugar. Enquanto a poeira não assenta, busco respostas, vasculho prateleiras.
Toda mudança consome, e essa não é diferente. Estou exausta, mas com uma imensa vontade de viver, comprar móveis novos, decorar a casa, receber visitas.
Aqui, nessa casa que vem sendo construída, não entrará um futuro distante, só aquele que cabe na minha mão. Não tenho arquitetado planos mirabolantes, só os que meus braços conseguem realizar agora. Isso chama-se cautela, material que tenho em estoque na caixinha de emergência depois de ter sofrido um bocado de desilusão.
Essa mudança que tem acontecido dentro de mim é sozinha. Não adianta chamar ninguém para ajudar, pagar carreto. Ninguém virá me transportar daqui para onde quer que eu vá. É minha mudança. São as minhas escolhas do que fica e do que jogo fora.
Não há corrida contra o relógio, não existe uma data para que tudo se ajeite, nem mesmo calculei quando devo fazer um intervalo entre o peso de um móvel e outro.
A questão é abandonar um velho lugar, conceitos antigos, custe o tempo que custar. É aceitar essa nova fase de uma face cada vez mais diferente, seja no cabelo ou no olhar.
Meu olhar tem tentado dizer muito mais do que quero falar atualmente. Trancado nesse cômodo por anos, está aflito para contar que algo novo acontece do lado de dentro.
Eu sei que esse tempo de mudança é também uma boa época para plantar. Mais do que nunca tenho escolhido sementes e cavado a terra, sentindo seu cheiro, sua umidade e, respeitando seu tempo, depositando nela toda minha esperança.
Não tem jeito. Eu sempre vou esperar pelos jardins. As flores sempre serão necessárias para enfeitar qualquer lugar em que eu esteja.
Isso não vai mudar: vou continuar tendo dessas singelezas de gostar das cores, da natureza e de tudo o que é pateticamente puro.
Um dia minha casa nova estará pronta, cheia de luz, com cada coisa em seu lugar. Então eu vou poder contar sobre como foi mudar, sobre tudo o que deixei para trás, sobre os sentimentos novos que trouxe para perto de mim e, principalmente, sobre como cresci, aprendi a sonhar e me reconhecer como dona do meu espaço.

Sabrina Davanzo

5 comentários:

Juuh Nascimento disse...

Adorei seu cantinho, suas escritas.
Parabéns, tudo e belo por aqui.
Te seguindo! :)
Depois passa la no meu cantinho pra conhecer

Bjs flor

meus instantes e momentos disse...

que modo bonito vc tem de escrever.
gostei do jeito que vc desenvolveu o texto.
Muito bom.
Maurizio

Clara Gontijo disse...

por aqui está registrada várias notas dos pedacinhos que agora varre para renovar seu canto. Quem a conhece sabe, mais que ninguém, quanta alma existe em cada inverso seu. A vida é um constante registro, sem borracha, mas com novas páginas branqinhas que se abrem a cada dia para que se escreva algo novo. Lá em 2008, ano tão distante (nussa!) onde nossa amizade começou, está seu primeiro post, Autorretrato (na época nem tinha ainda essa correção da nova lingua portuguêsa), muitas pessoas estão passando por lá e se identificando com o princepezinho, enquantos outras já passaram por ele, pela mudança que está fezendo neste momento, e por sabe-se lá mais quantas páginas de vida... tudo está eternamente começando, e é lindo sua forma de escrever sobre esse recomeçar. A limpeza é sua, mas espero poder lhe ajudar sempre a jogar fora uns entulhinhos quando precisar, ou quem sabe, melhor ainda, levar algumas flores para enfeitar seus novos dias.

Anônimo disse...

O que é isso moça? vc entrou em mim?
Sim, tenho certeza disso, não ha outra explicação...kkkkk
Lindo Sabrina, perfeito!
Adriana - PA
bjs

Monique Burigo Marin disse...

Sabrina, sua sensibilidade é inspiração. Estou sempre por aqui, mesmo que silenciosamente. Um dia, ainda compro seu livro! :)