29 de jun. de 2010

Exorcismo

Algumas pessoas chamam de egoísmo. Eu chamo de obsessão essa minha mania de só pensar em mim. Essa necessidade instintiva e vital de me compreender, me amar, me aceitar, fazer o que me deixa feliz. É um cuidado exacerbado.
Como todo obcecado, há dias em que surto e me odeio, me repudio, sinto uma raiva animalesca de mim. Preferia que eu não existisse. É um caso de autopossessão. Eu dentro de mim numa briga infindável pelo poder, pela direção da minha vida.

Sabrina Davanzo

28 de jun. de 2010

Dúvida?



Sem ter todas as respostas, fico apenas com uma certeza: não estou aqui para entender.

Sabrina Davanzo

Exigência


A vida exige demais de mim quando só o que posso dar é amor. Parece que o amor está fora de moda, não serve, perdeu valor no mercado.
Ela quer meu sangue. Eu que nem o tenho mais correndo em minhas veias. O que eu tenho é uma lividez e apatia que me levaram embora as hemácias. Já que o amor não é aceito, ofereço estas gotas de sal que sei arrancar de dentro de mim com um pouco de contração dos músculos e nariz vermelho. Ai, essa vida exige demais.
O amor é tão leve.... e ela não o quer... e ela o rejeita.


Sabrina Davanzo


Receita


Sei muito bem do que é feita a eternidade:
pequenos minutos que me engolem,
horas que me consomem,
tempo que demora passar
e saudade de tudo o que fica.


Sabrina Davanzo

Sem(i)Deus



Como eu queria ser perfeita e imortal como os meus ídolos. Como eu queria que todos os meus erros fossem perdoados e camuflados em nome do que eu significo. Não tive a sorte de nascer no Olimpo. Minha mãe não me concebeu a partir de um semideus. Nasci anônima, desconhecida e sem graça. A mim não pertence o triunfo.
Seria esse o castigo para quem deseja ser mais do que cabe num corpo mirrado?

Sabrina Davanzo

Com todas as letras


Então, me diga você: de a a z o que é que falta para a gente se entender?


Sabrina Davanzo

27 de jun. de 2010

Partiu


A felicidade é tão efêmera que quando me dou conta de que a estou sentindo ela já está indo embora.


Sabrina Davanzo

25 de jun. de 2010

Composição


O ser mais delicado, mais sensível, não se compara ao que sou. Sou de papel de seda, asa de borboleta, casa de caracol, corpo de libélula. Não tenho composição definida. Sou etérea, sou completamente mortal.


Sabrina Davanzo

Sempre aparece...


Sempre tem um sol por trás das nuvens escuras. Dá para ver o seus raios entranhando o céu, dá pra sentir o seu calor.

Você não me engana, mau tempo. No fundo, eu sei que você queria ser bom. E vai ser. Eu sei! O sol vai aparecer.

Sabrina Davanzo

21 de jun. de 2010

Acorda

Abre os teus olhos,
devagar,
que é pra luz não incomodar.

Estica os braços,
com força,
que é tempo de começar.

Levanta-te,
põe-te a sorrir
que é hora de ir.

É (a)manhã de novo
tens de acordar
é hora de despertar.

Sabrina Davanzo

20 de jun. de 2010

Joguinho das relações



Tira daqui, põe ali. Tira dali, põe de cá. Não, volta. Arreda pra lá. Traz pra aqui. No final, só resta um. Eu.


Sabrina Davanzo




19 de jun. de 2010

Inverso na Quina Galeria


O livro Inverso Meu - pequenas histórias para gente grande - está disponível na Quina Galeria aqui em Belo Horizonte. Se você tem interesse em comprar um mas tem preguiça de pedir pela internet ou não quer pagar frete, essa é uma ótima opção. Aproveite para ver as coisinhas lindas, de uma galera super talentosa, que vende por lá.

A Quina Galeria fica no Ed. Maleta, segundo andar, na Rua Augusto de Lima, no centro.


Sabrina Davanzo


18 de jun. de 2010

Dias de feira



Segunda. Ausência. Terça. Ausência. Quarta. Ausência. Quinta. Ausência. Sexta. Ausência. Sábado. Ausência. Domingo. Ausência. Paciência. Não sei onde estou nos dias da semana.


Sabrina Davanzo

17 de jun. de 2010

Piano


Ela desconfia que carrega um peso desnecessário em sua vida. Pior é que ela não sabe como se livrar dele.

Sabrina Davanzo


Joaninha



Joaninha tem bolinha
e é toda delicada.
Seja moça com pressa
ou desanimada,
quando vê Joaninha
fica toda apaixonada.


Sabrina Davanzo

Documento


Martinha sempre levava na bolsa apertada alguns recortes que gostava. Tinha para si que um documento frio e verde de identidade, definitivamente, não conseguia dizer quem ela era, não lhe traduzia o estado de espírito. Então, caso fosse preciso apresentar um documento, em qualquer ocasião, Martinha mostrava os recortes.

Certa vez, na repartição, o atendente com cara mal dormida lhe pediu: “Documento, mocinha”. E lá foi Martinha caçando um recorte que combinasse com aquele dia. Entregou ao homem o recorte de um dia de sol. Sem paciência, o funcionário devolveu o pedaço de papel e resmungou que aquilo não a identificava. Martinha insistiu: “identifica sim, Senhor. Pois hoje sou desse jeitinho que o Senhor vê. Sou serena, estou radiante e iluminada.”
Noutra vez, Martinha apresentou na entrada para o cinema a imagem de uma girafa distraída, olhando para o nada, porque se dizia nas nuvens, pensando na vida.
Poemas, letras de Chico, arco-íris, guerra de travesseiro, neném no colo, gatinho tomando leite. Tudo podia ser Martinha, menos aquela foto séria e sem expressão do seu documento que, tão equivocadamente, chamava-se identidade, posto que não identificava nada. Ninguém poderia dizer quem era Martinha através dele. Bastava prestar atenção nos recortes para conhece-la.

Sabrina Davanzo



Dúvida


Estou com vontade de mudar. Não sei se de coração ou de lugar.



Sabrina Davanzo

Pedalando


Viver é andar de bicicleta. É você quem escolhe a direção, basta segurar firme o guidom. Uma vez pedalando, você está sujeito a tombos e arranhões, mas vale a pena.
Considere a brisa no rosto, a liberdade. Pense no movimento das pernas que nunca param e em tudo o que irá descobrir pelo caminho.
Sim. Viver é andar de bicicleta. E é permitido, inclusive, levar uma companhia. Vem comigo?


Sabrina Davanzo


16 de jun. de 2010

Machucado


Eu tenho uma ferida aberta que procuro esconder com curativos de mentira.
Mas acontece que feridas abertas são verdades escancaradas e mais cedo ou mais tarde sentirei suas fisgadas.
Preciso perder esse medo do “vai doer”, preciso perder essa aversão de ter que tocar nessa coisa feia para curá-la.
É difícil lidar com a verdade, esse antídoto amargo que incomoda, arde.
Por baixo do curativo confortável existe uma mentira dilacerando a minha pele. Preciso agir rápido, expor é a melhor forma de fazer sarar.
Essa ferida um dia será uma cicatriz. Um troféu tatuado em meu corpo mostrando que eu venci.

Sabrina Davanzo


11 de jun. de 2010

Aqui embaixo



Daqui debaixo, pouco enxergo, ando meio cega procurando entender teus planos.
Será mesmo necessário?
Daqui, você parece brincar de ensinar lições em que os tombos são para valer.
O vento traz tua risada dizendo que vai passar, mas teu tempo é manso e caminha devagar.
Olhando daqui, é difícil compreender... não tenho a visão privilegiada do meu destino como você.
E todos dizem que você sabe o que faz... nunca erra, é bom e justo.
Eu o obedeço, mas não posso deixar de fazer uma pergunta: eu tenho cura?

Sabrina Davanzo