19 de ago. de 2010

Listas


Ela tinha tantos projetos que anotava-os para não esquecer nenhum.
Em sua lista de prioridades, a vontade de acreditar que todo resto era possível vinha em primeiro lugar.

Sabrina Davanzo

17 de ago. de 2010

Monstro



O melhor amigo de Sofia era um monstro que vivia embaixo da sua cama, junto com a poeira e um pé de meia esquecido. A amizade começou quando, numa noite, ele saiu para assustá-la e a encontrou chorando com a TV ligada para espantar a escuridão.

Sabrina Davanzo





Antônimos



Ela que era noite,
resolveu ser dia
Em vez de chorar,
sorria
Em vez de gritar,
pedia
No lugar da revolta,
cedia
No lugar da reclamação,
compreensão
E, para quem nunca estava disposta,
diversão
Para fazer tudo diferente,
preferiu os antônimos aos sinônimos
nada de letargia, monotonia, empatia
Sua vida ganhou novas cores
e seu coração,
mais amores

Sabrina Davanzo




12 de ago. de 2010

Caixa de entrada

Recebi seu email, amiga, e devo confessar que também me deu saudade daquela época. Quando bastava um astro do rock pra nos fazer felizes. Quando o presente era muito mais importante que o passado. E que o futuro... Tínhamos a eternidade como nosso futuro! As assombrações da meia-noite não vinham perturbar e o dia não era tão pesado quanto é agora.
Quando foi que deixamos de nos divertir? Quando foi que tudo deixou de ser prazer e se tornou uma eterna e intransponível obrigação? Quando foi que deixamos de ter tempo para nós mesmas e para nossos amigos tão queridos?
Tantos queridos estranhos em nossas vidas agora... Estranhos que acabam tomando tamanha importância, que às vezes chego a ficar com medo da presença deles.
Lembra do lançamento do Titanic no cinema? Tivemos tempo de sobra para irmos assistir o mesmo filme com final deprimente 20 vezes! Tínhamos tempo de comprar os presentes mais absurdos de aniversário uma para a outra. Procurávamos interminavelmente. E como era bom! Era como se fôssemos ter aquele tempo pra sempre. E, de certa forma, tivemos. Algo que nunca vai passar, nunca sairá das nossas lembranças. Sonhos que continuam bem vivos.
Naquela música que você falou, o Bon Jovi diz que em algum lugar alguém está sonhando ("Somewhere someone's dreaming"). E acho que é nisso que devemos nos prender, amiga. Nos sonhos. Naqueles sonhos que dependem só da gente. Naqueles em que acreditamos de verdade. Naqueles em que nada é impossível. Nos sonhos inocentes e, mesmo assim, tão reais. Naqueles sonhos que sonhamos acordadas pouco antes da meia-noite chegar.
Não fique triste pela meia-noite que se fez em seu coração, amiga. A meia-noite pode trazer lembranças ruins, pode tirar seu sono, pode até dar medo. Mas é bom pensar que depois dela um dia novo começa e que a dor acaba passando.
Dói tanto porque a gente deixa doer e porque foi importante pra gente. Dói tanto porque, como sempre em sua vida, você se doou. E, se por um lado é triste pensar que dói tanto, pelo outro é bom saber que parte da sua doação vai se transformar numa sementinha plantada no outro, nos outros. Uma sementinha de esperança plantada neste mundo tão injusto às vezes.
Sei que tem sido difícil arrumar tempo pra nos encontrarmos, amiga. Como o Bon Jovi fala na música, eu queria estar lá pra cantar essa música (wish that I was there to sing this song). Queria estar aí ao seu lado agora, amiga, pra te dizer que sua meia-noite vai passar. Mas, quem sabe não conseguimos marcar aquele dia para lembrarmos de dias mais felizes, quando eram três da tarde em plena meia-noite? Vai ser bom rir ao seu lado de novo, deixar sua presença iluminar o ambiente.
Amanhã te ligo, amiga, e combinamos algo pro fim de semana. Quem sabe já não compramos o ingresso para o show?

Carol (por e-mail)

11 de ago. de 2010

Midnight in Chelsea


Midnight in Chelsea: http://www.youtube.com/watch?v=qtXCxjbBKks


Amiga, não sei porque hoje me deu vontade de ouvir Bon Jovi...
Um dos últimos clipes dele que me lembro de ter visto o lançamento foi Midnight in Chelsea. Coloquei para tocar. Não sei muito bem o que essa música fala a não ser que é meia-noite em Chelsea... também sei que ela combina comigo. É meia-noite em mim, amiga. É a hora do desespero, a hora que a mente pensa o que o corpo lutou o dia inteiro para não lembrar. É a hora que as assombrações escolhem para nos assustar.

Que saudade da nossa época, amiga. Ver o Bon Jovi no Programa Livre e dormir em paz, à meia-noite. Como eram tranquilas as nossas noites, nossos dias. Nem de longe se pareciam com a tristeza da música que ouço agora, muito menos com a que se instalou dentro de mim.
Será que um dia voltaremos a ter essa liberdade adolescente dentro da gente? Será que um deixaremos de nos preocupar com o passar das horas?
Queria que você estivesse aqui agora. Queria que estivéssemos em um outro tempo.
Em alguma parte da música ele fala sobre “kiss good-bye”... É meia-noite, amiga. Já não existem mais beijos, muito menos de adeus... Por que é que dói tanto? A música diz que “leva um tempo para se acostumar” (Takes a little bit of getting used to), pelo menos em Chelsea é assim. Ah, se eu pudesse me mudar para lá, amiga! Onde quer que seja esse lugar... se eu pudesse sair daqui e começar a respirar de novo... porque aqui é sempre meia-noite e faltar ar.
A gente já não tem mais aquela turma, amiga! A gente mal pode contar uma com a outra, mas eu sei que nós tentamos. Entre um cansaço e outro... mesmo longe, tentamos estar perto.
Eu estou procurando sobreviver por mim mesma, como na música (she's holdin' on to her own hand)... leva um tempo até eu me acostumar.

Vamos marcar um dia para nos encontrarmos e ouvirmos todas as canções que embalaram os dias mais felizes das nossas vidas. Vamos rever nossas velhas gravuras de astros do rock, do cinema. Vamos assistir aos nossos filmes preferidos. Vamos tentar reviver o passado ou pelo menos provar que ele não sufoca.
É engraçado o modo como a vida flui... Aqui estamos nós, vivendo numa cidade estranha, ao lado de pessoas estranhas. Cada uma fazendo a sua história, levando seus tombos. Hoje fui em quem caí, amiga. É meia-noite em mim e preciso da sua mão para me levantar.
E a vida não para... “nasce um bebê, morre um velho”... (Baby's born an old man dies) nós continuamos seguindo. Quem sabe para onde? Seria para Chelsea? Será que lá é sempre meia-noite?
Na nossa época tudo parecia eterno e eu gostava de pensar assim. Já imaginou que um dia não estaremos mais aqui? O que é que vamos deixar? Quem vai pensar em nós? Quem vai sorrir ao lembrar das nossas manias, amiga?
É meia-noite em mim e é nisso que estou pensando agora. Será que um pedaço de nós fica para sempre em alguém? Eu espero que sim, amiga. Eu desejo que sim.
Então é isso... preciso dormir... preciso sonhar... Nem que seja com um tempo que não volta mais.
Saudades do Bon Jovi visitando o Brasil... Ouvi dizer que ele vem aí.. vamos ao show? Pelos nossos bons momentos...

“takes a little bit of getting used to... It's morning when I go to sleep...”


Texto enviado por e-mail para minha amiga Carol


Sabrina Davanzo



6 de ago. de 2010

Era vidro...



Não consigo escrever nada sobre ter acabado o encanto porque foi só isso: acabou o encanto. Simples assim. Como quando se apaga a luz, ou acaba de tocar sua música preferida. Como quando você come o último pedaço de chocolate ou desliga o chuveiro depois de um banho quente. Como quando o sol se põe depois de um dia de verão ou termina o passeio na roda gigante. Era doce... e se acabou...


Sabrina Davanzo

5 de ago. de 2010

Decepção



Onda violenta que arrasta, bem diante dos nossos olhos e sem piedade, o castelo de sonhos que existe dentro da gente.

Sabrina Davanzo



4 de ago. de 2010

Corpo


Tenho olhos. Posso vê-los em meu rosto diante do espelho, mas eles não me veem.
Não conseguem perceber que preciso buscar outro horizonte.
De que adianta serem verdes se só refletem o vazio cinza que trago no coração?
De que adianta serem arregalados se só quero mantê-los fechados para não ter que enxergar a situação?

Tenho pés. Posso vê-los diante do espelho, mas é como se eles não existissem. Perderam a força, não podem sair do lugar. Não obedecem ao comando do meu cérebro. É estranho! Tenho um corpo que não me compreende e luta contra minha vontade.

Sabrina Davanzo

3 de ago. de 2010

Insônia


É noite e minha cabeça funciona como se estivesse, ao meio dia, no cruzamento de duas avenidas movimentadas.

Sabrina Davanzo

2 de ago. de 2010

Intempéries



Aconteceu um terremoto dentro de mim que tirou tudo do lugar.
Preciso começar do zero. Preciso reerguer minhas estruturas, quem sabe do jeito certo agora.

Não é fácil ter atitude depois de um abalo dessa proporção. Necessito de toneladas de doações não perecíveis como paciência e amor.
Estou deitada, sem forças, nos escombros, mas antes lembrei de riscar no chão a sigla SOS (sempre funciona nos filmes) na esperança de passar alguém que se compadeça de mim e me ofereça ajuda humanitária.

Sabrina Davanzo

29 de jul. de 2010

Relatividade

Dois ou três comprimidos a mais naquela caixa e ela não estaria aqui hoje comemorando seu trigésimo aniversário.
Observando-a daqui, reparo como ela sorri em paz. Será que ela pensa em desistir agora? E quem é louco de interromper a felicidade? A dor sim, queremos conter a todo custo. Seja com comprimidos, bebidas, lençóis, projéteis de chumbo.
Todos os dias alguém, em algum lugar do mundo, contém a sua dor.
Só dois ou três comprimidos a mais, e ela não estaria aqui...
Pergunto-me se à noite, na solidão de sua companhia, ela se arrepende, se dá conta do que teria perdido caso tivesse a quantia exata na cartela para conter a dor.
Formatura, o nascimento da sobrinha, a viagem para a Europa, o encontro com seu grande amor, tudo veio depois... tudo não teria chegado.
Por que nos momentos de desespero não nos damos conta disso? Por que não pensamos: “é só uma fase... vai passar”?
Só dois ou três comprimidos a menos e eis um milagre, segundo os cálculos do médico plantonista. E ela parece tão satisfeita com o rumo que a vida tomou. Ah! Se a gente tivesse mais paciência e menos ansiedade.
Olho para sua mãe. Ela a encara fascinada, apaixonada pelo ser que trouxe ao mundo, que deu a vida que ela teria ceifado não fosse dois ou três comprimidos a menos quando descobriu a gravidez.
Ainda bem que nossas tentativas são passíveis de falhas. Observando este salão cheio de vida, percebo o quando ela é relativa... num momento de desespero, por dois ou três comprimidos a mais ou a menos, podemos pôr tudo a perder ou ganhar uma segunda chance. Só alguns gramas para muda tudo: um destino, uma existência, uma família, a felicidade do outro, a gente.

Sabrina Davanzo

26 de jul. de 2010

No escuro



O que faz o girassol depois que o sol se põe?


Sabrina Davanzo

Interceção

Estou diante de espaços em branco tentando preencher com palavras a falta que você me faz.
Sou repetitiva, melancólica, reticente... É porque hoje o que me consome não são frases de efeito, mas sua ausência hiperbólica.
Ainda bem que inventaram a escrita. Eu traduzo a minha dor. Eu explico por a mais b eu e você.

Sabrina Davanzo

23 de jul. de 2010

Estimação

Ela é um bichinho solitário e arisco que amansa com algum carinho e algodão doce com balão na ponta.
E foi o que ele fez. Espertinho, foi se aproximando com uma coisa em cada mão e logo a tinha esparramada em seu colo.
Depois que conquistou sua confiança, a novidade passou e ele a deixou meio de lado, emboladinha em um canto com o balão que guardava como lembrança do dia em que ele chegou.

Sabrina Davanzo

22 de jul. de 2010

Depois da chuva


E várias cores vieram lá do infinito, cruzaram o céu e formaram um imenso arco multicolor que mais parecia um grande portal de entrada para algum lugar mágico e calmo. Ela caminhou feliz em sua direção com a certeza de que a todos que passam pela tempestade é garantido o direito de conhecer aquele paraíso.

Sabrina Davanzo

21 de jul. de 2010

Das coisas que só ele sabe

Me leva para casa, me leva para lua
se eu sou tua, me coloca perto de ti.
Que vida é essa que dói sem doer?
Me leva pra casa, me leva pra junto de você.
O que será que tenho de aprender?
Acho que não tenho conserto
sou um vazo oco, que não ecoa, que não ressoa.
Onde foi parar a felicidade que eu sentia?
Por que eu voltei?
O que tem para acontecer?
Eu não quero ficar...
Me leva pra casa, me deixa recomeçar
me tira desse vazio, desse frio.
Por que tive que reabrir os olhos?
Por quê?
O que ainda está por vir?
Eu não quero ficar...
Eu me lembro bem daquelas paredes frias
e de como foi voltar aqui...

Sabrina Davanzo

20 de jul. de 2010

Sinal



Se achas que mereço ser feliz
hoje a noite
quando para o céu eu olhar
faça piscar uma de tuas estrelas
e eu saberei que é o teu sim

Sabrina Davanzo

16 de jul. de 2010

(des) amor



Se não me considerassem louca, eu sairia agora gritando por toda a cidade. Gritaria até me doer a garganta, sumir a voz, estourar o pulmão. Ensurdeceria meus pensamentos descabidos. Pularia da ponte, desse trem desgovernado.
Agora dei pra engolir o choro. As lágrimas se tornam sólidas e descem entalando o diafragma. Param entre o peito e o estômago. Viram úlcera. E doem. E queimam. E pesam.
Quero prometer aqui, diante da minha fraqueza, que nunca mais vou me permitir tocar em teu nome. Enquanto durar esse desapego, vou ter sempre esse apelo surdo no escuro dos meu olhos, olhos que você cegou: “NÃO É JUSTO!” Ninguém deve gostar sozinho. Todo sentimento deveria acabar ao mesmo tempo. Uma mão nunca deveria esperar pela outra.
Eu DESamo você.


Sabrina Davanzo

15 de jul. de 2010

Dói


Dor mais doída desse mundo
é ter amor pra dar
pra alguém que não quer te amar
É assim:
de se perder o chão
o ar
É como ir pela contramão
dar uma facada no coração
com uma faca de serrar
Ah...
Não tem explicação não
Só peça a Deus
pra te livrar desse mal
reza noite e dia
pede pra São Sebastião
pra não te deixar amar em vão.

Sabrina Davanzo

Cavalinho de estimação


O cavalinho está preso com um cordinha a uma estaca e fica o dia inteiro marchando em círculo. Só para quando acaba a pilha ou chega a hora do vendedor ir para a casa.
Ninguém compra... a primeira vista parece tão sem graça.
Eu acho lindo e, embora não seja um brinquedo, entendo a situação do cavalinho.
Sei bem o que é estar presa a alguma coisa e não sair do lugar. Pena eu não ter a sorte do cavalinho. Não tenho um vendendor para me levar daqui. Não tenho sequer a energia que ele tem para marchar, ainda que isso não o leve a parte alguma.

Sabrina Davanzo


Ps: este brinquedinho vende perto do meu trabalho. E eu realmente queria ter um : )