9 de mar. de 2010

Jardins distantes


Na janela, o potinho cheio de água com açúcar e florzinhas na ponta espera a visita do passarinho delicado.
E ele não vem. E ele não vem.
Isso é tudo o que eu tenho para oferecer e sei que é tudo o que ele ama: doces flores.
Aguardo sua visita enquanto vejo grandes gaviões sobrevoarem o meu teto.

Vem, beija-flor. Vem provar do meu amor.
E ele não vem. E ele não vem.
Isso é tudo o que eu podia fazer para ter o prazer de vê-lo pairar levemente diante dos meus olhos.
Vem, beija-flor. Vem encher meus dias de sentido.
E ele não vem. E ele não vem.
Desconfio que não goste de flores artificiais.
Perdoe-me, beija-flor. É que moro muito longe dos jardins... levaria uma eternidade para alcançá-los...


Sabrina Davanzo


2 de mar. de 2010

Passeio à cavalo marinho


Hoje saí para passear num cavalo marinho. Seus galopes desenfreados me levaram pelas águas geladas. Redemoinho. De repente, fica que nem estátua. Em nossa frente, lá vai um cardume de peixe espada. Quando volta a trotar, acabo escorregando por sua crina, rodopio igual a uma bailarina para no fundo do oceano deitar.
Eu inconsciente. Ele, cavalinho pequeno e bem fazejo, me dá (de leve) um beijo e pede a Posídon, o deus do mar, para vir me curar.
Abro os olhos apavorada, me agarro a seu corpinho pequeno e grito: me tire daqui, me leve à tona, preciso respirar.
Cavalo marinho me deixou na beira da praia e saiu à galope, levando meus sonhos em cada trote – sonhos que mal se igualavam às pequeninas ondas que vinham até a areia me espiar.

Sabrina Davanzo

25 de fev. de 2010

Perdi?



- Onde foi que a deixei? Perdi! Desde que estou nesse mundo, nunca ouvi dizer que isto seria capaz de acontecer... Perdi...
- Eu sinto que perdi... Oh! O que será de mim? "Procure com calma, onde jamais imaginou encontrar" é o que me dizem. Mas sei que não vai adiantar... perdi...

E como ela previa, naquela época, não a encontrou. A tristeza e o desânimo tornaram-se seus companheiros constantes. Já não sorria nem chorava. Seus dias eram um "tanto faz" atrás do outro.

Numa tarde fria e cinza, ouviu tocar a campanhia.
Quem poderia ser? Quem ousava lhe incomodar, fazendo-a levar seu corpinho fraco até a porta?
Abriu.
Uma forte luz invandiu a sala, inundou seus olhos.
- Pensei que a tivesse perdido para sempre... que nunca encontraria você...
- Tens certeza de que me procurou?
- Com toda minha vontade. Busquei-a nos ombros de meus amigos. No colo dos meus amores. Na intimidade de última hora com estranhos. Busquei-a nas ruas lotadas e na solidão do meu travesseiro.
- Minha filha, percebes que procurastes nos lugares errados? Sequer cogitou olhar um segundo para dentro de ti. Onde mais poderia eu viver senão aí?
- Por que demorei tanto para encontrá-la?
- Porque eu chego quando todo o resto já se foi.
- Perdi, por muito tempo meus anseios, desejos... nada queria...
- Eu sei. E por isso estou aqui. Volte a sonhar, meu anjo. Ainda que se apaguem todas as chamas, eu serei a fagulha que acende sua vontade de viver. Eu sou a esperança.

Sabrina Davanzo




17 de fev. de 2010

Baile de máscaras

Já passou meu carnaval. Sambei a canção da vida no meio da avenida, meu coração bateu ao ritmo da bateria.
Minha fantasia de destaque tinha contas brilhantes que revelavam minha doçura e aspereza animalesca. Nada sensual para alguém que não tinha mais que um corpo magro para mostrar. Abri alas com brilho nos olhos e o sorriso franco de quem sabe que essa festa é efusiva e dura pouco. Mestre sala conduziu minha porta-bandeira com orgulho de me ver cair na folia.
Já passou meu carnaval. É hora de tirar a máscara. Em questão de segundos, confetes e serpentinas já se encontram no chão. Posso deixar o salão com o mínimo de dignidade porque, no baile de máscaras, eu interpretei meu papel e, agora, estou de volta ao que verdadeiramente sou - solidão.

Sabrina Davanzo



8 de fev. de 2010

Livro: O albatroz azul

Só agora pude acabar de ler um livro encantador, divertido e comovente: O albatroz azul, de João Ubaldo Ribeiro.
Tertuliano, o protagonista, é o tipo do personagem que a gente queria que fosse de verdade, dá vontade de tê-lo por perto para ouvir suas histórias. Ele é cada um de nós, com as marcas e dúvidas que a vida vai imprimindo em nossa alma e que, no final, é só o que deixamos e o que realmente importa.
Tertuliano é um velho que já viveu tudo o que tinha para viver e já a beira da morte espera encontrar um sentido para sua existência. Eu acredito que somos todos eternos Tertulianos!

"...nem a vida, nem a morte têm explicação ou, se têm, jamais estará a nosso alcance conhecê-las."


Sabrina Davanzo

5 de fev. de 2010

Discussão

Se pudesse discutir com o vazio que sentia, com toda certeza diria:
- Sai pra lá! Vai encher outro coração.

Sabrina Davanzo

28 de jan. de 2010

Vista

A vida é um ponto de vista. Eu uso lentes coloridas. E, ainda que esteja no meio da rua, vou sempre dizer que estou em um camarote.

Sabrina Davanzo

26 de jan. de 2010

Paciente


Nem falava com ele ultimamente tamanho era seu ódio por aquele que resolveu interferir no seu destino, mudar sua vida tão certinha e politicamente feliz.
Ele espera pa-ci-en-te-men-te até que sua raiva passe. Então irá lhe mostrar que enquanto ela fazia tempestade dentro de sua alma, ele preparava um sol quente e maravilhoso aqui fora.
Até que esse dia chegue, ele pede baixinho: abra os olhos. Enxergue além das lágrimas, além do agora.

Ps: Para Carol

Sabrina Davanzo


21 de jan. de 2010

Até onde?


Ah se eu tivesse asas mais fortes, voaria além do infinito, meu amor.
Chegaria às galaxias mais distantes, faria voos rasantes no sistema solar. O problema, meu amor é que elas ainda são tão frágeis. Por enquanto, só consigo chegar até o céu.
Sempre ouvi dizer que o céu é o limite, mas isso é para os tolos, meu amor. O limite é onde você quiser. Há de haver alguma coisa maior para além de todo esse azul. Tenho certeza e repito: quero ir além do infinito.

Sabrina Davanzo

Reunião

Neste momento, acontece uma reunião importante dentro de mim: minha razão conversa com meu coração. Espero que, finalmente, cheguem a um acordo.

Sabrina Davanzo

8 de jan. de 2010

Espertinho

Se achava tão esperto... fugia da realidade... até a vida ele tentava enganar. Diante dela, fingia ser a pessoa mais feliz e satisfeita do mundo. Só existia uma pessoa que ele nunca conseguia passar para trás: a sua consciência. Essa sabia direitinho tudo o que ia em sua cabeça e e em seu coração.

Sabrina Davanzo

7 de jan. de 2010

Casa nova


Procurou no quintal de casa um lugar melhor para viver. Encontrou, no pé da goiabeira, um ninho onde pequenos passarinhos viviam a cantar. Pensou que talvez fosse o lugar perfeito, mas esqueceu-se de que para viver ali era preciso ser livre. E ela... bem, ela ainda trazia uma corda amarrada ao pescoço.

Sabrina Davanzo


4 de jan. de 2010

Enquanto estou no caminho...

Para ler ouvindo: Bach

Tenho uma pressa que consome minha ânsia por realizar. Mas, você me perguntaria: para que desespero se tens a vida toda para fazer o que tiver de ser? A verdade é que não sei quanto essa vida dura. Quantos dias ainda me restam? Viver é sopro profundo... é hálito quente que, quando toca os lábios, se perde em meio as partículas de um ar mais denso e forte. O momento em que se dissipa é imperceptível, mas sabe-se que é real. E real também não é vida que, dia a dia, esvai-se como um sopro diante dos nossos olhos numa espessa camada chamada tempo? Nada pode esse hálito fresco e divino diante das implácaveis horas e é por isso o meu desespero. Pode ser que não me sobre tempo suficiente... Pode ser demasiado tarde quando eu, finalmente, decida por viver. Só peço para ficar o necessário. Preciso encontrar o que tanto procuro... Imagino que no fim, sim ele sempre chega para o velho e para o moço, aos que imploram e aos que desdém, no fim, talvez não haja o que encontrar. Eis o grande mistério. O não saber quanto tempo me resta me transtorna. Por favor, espere um pouco... dê-me mais tempo... preciso conhecer o sabor da felicidade.
Amém.


Sabrina Davanzo

Um ano bom



Quando o anjo da paz, nestes primeiros dias do ano, bater a sua porta, permita que ele entre e faça do seu coração uma eterna morada. Pois lembre-se que não há sentimento mais apropriado para lhe fazer companhia ao longo dos dias senão a paz. Dela é que nasce tudo o mais: felicidade, saúde, amor... Só através de sua irradiação é que o mundo poderá descansar de tanto sofrimento. Que você e todos que o (a) cercam estejam em paz em 2010.
Feliz ano novo!

Sabrina Davanzo



18 de dez. de 2009

Oráculo


Seus olhos, meu amor dizem tudo o que eu preciso saber: você me ama e eu amo você.

Sabrina Davanzo

Destino: Polo Norte



Querido Papai Noel,

Hoje estou escrevendo para dizer que não ficaremos tristes se, neste ano, o senhor não quiser aparecer. Eu sinto muito pela sua casa... Nós realmente não fomos bonzinhos nestes últimos tempos e o resultado é que acabamos fazendo mal até para o senhor. Eu já pedi para minha mãe guardar todo o gelo do congelador da geladeira aqui de casa para lhe enviar de presente. Não é porque o senhor é o Papai Noel que deve ganhar presentes, não é verdade? Falei com a mamãe que gostaria muito de ajudar aqueles ursinhos brancos que vivem aí com o senhor também, talvez trazer alguns para morar aqui em casa... mas acho que não teríamos espaço e gelo suficientes para eles. Vou ver com o Seu Angelo, o dono da vendinha aqui da minha rua. Ele tem um freezer bem grande, talvez possa ajudar.
Agora vou me despedir, Papai Noel. Nem vou pedir nada esse ano não, mas se ainda assim o senhor achar que merecemos alguma coisa, traga um pouco de consciência para todos nós, por favor.

Um beijo, Papai Noel. Até no ano que vem.

Sabrina Davanzo


15 de dez. de 2009

Sentença


Tanto me cobrei e hoje acabo descobrindo que não sei lidar com dívidas. Sem levá-las a sério, fico devendo a mim mesma, às minhas expectativas. Não tenho nem coragem de encarar as pessoas nas ruas. Suas expressões, se não refletem seu próprio interior, me acusam de desonesta.
É imperdoável o crime de trair-me. Por isso, não sem autopiedade, espero minha sentença. Já não tento mudar. Já não sei me encarar. Escondo-me tal qual o criminoso que envergonha-se e teme represálias.
Prometo enviar-lhe notícias do meu cárcere.

Sabrina Davanzo

De La Mancha


Ando meia quixotesca. Trago dentro de mim muitos sonhos para fugir da dura realidade.

Sabrina Davanzo

9 de dez. de 2009

Fique ao meu lado

Leia ouvindo: Minueto - Bach

Minha vontade é esperar pela primavera onde o calor do sol aquece sem castigar; Onde o canto dos pássaros é sinfonia em homenagem a vida e a tarde é poema escrito lentamente no céu. Talvez eu resista às tempestades deste verão escandaloso e alterado só para presenciar a aquarela da primavera. Meu corpo castigado pela intensidade do calor espera a paz da mais doce das estações.
Ah! Como desejo a primavera e seus cheiros... como desejo enxergar a vida desabrochando bela e perfeita diante dos meus olhos. Já posso me imaginar correndo pelas ruas proclamando: "Chegou a primavera! Libertem suas almas!". Mas, antes, espera ao meu lado, meu amigo, por esta bonança. Não se apresse em ir embora quando chega o verão... Fique por perto enquanto esses outros tempos precisam passar. Espera comigo, meu companheiro, o florescer. Porque uma hora ele há de chegar.


Sabrina Davanzo

Surpresa...

A vida é sacolinha surpresa. Para alguns felicidade é chiclete - saborea-se por um longo tempo e só se desfaz dele quando quiser. Outros vivem de emoções passageiras - balinhas sortidas, de cores, tamanhos e gosto diferentes- e, nem por isso, menos alegres e intensas. O que não falta é um brinquedo, ainda que singelo, para todos. Para viver é preciso passar no balcão, pegar sua sacolinha e cruzar os dedos para encontrar um monte de coisas boas.

Sabrina Davanzo