25 de mai. de 2009

Primeiro Ato


Ficou ali, observando o passarinho na gaiola que voava pra aqui e pra ali todo atarefado. E comia. E cantava. E bebia água e voava baixinho e curto de novo.
- Não te cansas essa monotonia? Quanto tempo ainda há de aguentar, até que te tornes livre para viver?
O passarinho estufou o peito, afinou o bico e respondeu:
- Ora, pois eu já vivo. A vida é peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, pouco importa onde instalaram o meu palco, trato logo é de ser um bom ator.

Sabrina Davanzo

Furacão


Tem horas que se sente na obrigação de ser feliz. É quando menos consegue.
Para ela a felicidade não é inata, inerente, não vem fácil. É algo que deve ser buscado. Uma busca sem fim, que cansa e no final só encontra frustração e desespero.
É aí que vem o choro e a vontade de parar de buscar. Mas não para. É anciosa demais para sentar e esperar.
Quando era pequena era mais fácil. Tinha um passarinho que cantava dentro dela e a liberdade dele reinava.
Por dentro, hoje, ela só tem um furacão que consome tudo. Que faz barulho. Que assusta, mas não mata.

Sabrina Davanzo

22 de mai. de 2009

?

Sabe quando você não sabe o que fazer? O que você faz?

Sabrina Davanzo

21 de mai. de 2009

Recordação



Numa tarde de sol, do alto dos meus três anos, eu via pela janela um senhorzinho que subia a rua puxando uma zebrinha por uma corda. Os dois subiam mansos, com aquela preguiça que um sol quente traz.
O senhorzinho, me vendo pendurada na janela, abriu um sorriso e perguntou:
- A mãe tá aí?
Não obtendo nenhuma reposta minha, tocou a campanhia, que foi atendida por minha mãe. 
Depois de alguns dedos de prosa ela me chamou: 
- Vem tirar foto! 
E foi assim que nasceu uma linda recordação de minha tenra idade. No passeio de casa, com os raios de sol iluminando minha alegria e excitação, minha mãe me sentou no lombo da zebrinha, e o senhorzinho registrou o momento em sua câmera fotográfica.
Só Muitos anos depois é que fui perceber que a zebrinha na verdade era uma mulinha com listras pintadas à mão. Achei engraçada a situação... Mas para mim, continuou sendo uma zebrinha. Dessas que vem lá da Savana Africana para tirar retrato com a gente. 

Sabrina Davanzo 



16 de mai. de 2009

Discontos de fadas


Quando era pequena adorava ouvir o vinil azul do Patinho feio que ficava na casa da minha vó. Não me lembro de ter visto filme, desenho, livro dessa mesma história que tenha me marcado tanto. O narrador, com sua voz grave, denotou uma feiúra para o patinho que imagem nenhuma poderia representar. E como isso me entristecia. Como pode ter sido tão humilhado, tão desprezado? Afinal, feio ou bonito, são as diferenças que nos fazem ser quem nós somos.
Claro que, naquela época, eu não formulava esse raciocínio em minha cabeça, mas sabia que isso era o que me incomodava. E se eu também fosse feia? Nunca seria aceita? O pobre patinho, que na verdade era um cisne, enfrentou até bicadas de galinhas. Sentia profundamente aquelas bicadas. Chegava a imaginar a dor do coitado. Com lágrimas nos olhos, ouvia o canto das avezinhas que entoavam com suas vozinhas finas a canção “nós somos as garcinhas, somos umas gracinhas...”. Imaginava se elas eram mesmo tão bonitinhas e quanto devia partir o coração do patinho ouvir isso. Ele que era só um cisnezinho novo que nem conhecia o mundo, que nem conhecia a si próprio.
Ainda bem que no final tudo se resolvia. Sentada ao pé da vitrola, sem quase nem respirar para não fazer barulho e perder a história, eu realmente sentia um grande alívio quando a tormenta passava. Quando terminava o vinil, eu o pegava e ficava admirando. Como cabia uma história tão pesada como aquela daquele disquinho azul claro? Guardava na capinha rota de nem sei quantos anos. Sempre pensava que um dia ouviria de novo. No fundo, queria que na próxima vez a história tivesse mudado. Queria que o patinho não sofresse tanto. Já naquela idade eu tentava aprender formas de não enfrentar a dor.

Sabrina Davanzo

Texto postado originalmente no blog Discontos de fadas da artista plástica Adriana Peliano.

14 de mai. de 2009

Manisfesto:

Eu quero ter alguém.
Alguém que queira dividir comigo a cama,
a casa, o último pedaço de pizza amanhecida.

Eu quero ter alguém.
Alguém que divida comigo a vontade de conhecer a Europa,
de passar o dia deitado na grama do parque,
de ter um filho.

Eu quero ter alguém.
Alguém que compartilhe comigo sorrisos e decepções
que tenha sonhos
e que eu possa estar incluída em alguns deles.

Eu quero ter alguém.
Alguém que seja personagem de filme romântico,
que erre mas, acima de tudo,
tenha um coração puro.

Eu quero ter alguém.
Alguém que compartilhe comigo
um cantinho pequeno e aconchegante
que vai acomodar tudo o que a gente conquistar.

Eu quero ter alguém.
alguém que ao ver de manhã
sorrindo para mim eu possa pensar:
eu te encontrei!

Eu quero ter alguém.

Sabrina Davanzo

Floral

Tenho uma amiga que está tomando gotinhas de felicidade. Ela compra na farmácia um vidrinho todo cheio. A receita? Uma mistura de flores e cores.
Gostaria que as farmácias também vendenssem comprimidos de sabedoria, sprays de humildade, pomadas de carinho. Seria bom se as dores pudessem ser curadas assim.
Ah! E claro, tudo baratinho para todo mundo ter acesso. Desconto garantido pelo programa do governo: Receita para vida feliz.

Sabrina Davanzo

10 de mai. de 2009

um pouco de mim


Eu sou criança, mimada, boba. 
Não coloco malícia onde não tem. 
Onde tem, não enxergo. 
Parto do princípio de que todos são 
como eu: simples. 

Também excomungo, como o Papa, 
quando as coisas ou pessoas
não são como eu gostaria. 
Mas um minuto depois 
já sou eu de novo: doce. 

a vida coloca monstros diante de mim.
Não sei como lidar com eles.
fico com vontade de chorar
mas lembro que tenho que ser como todos: forte. 

Fecho os olhos, aperto bastante. 
Quando os abro o monstro é menos assustador. 
Chuto sua canela, "sai da frente" 
e sigo como eu sou: feliz. 

Sabrina Davanzo 

8 de mai. de 2009

Sorria


Todos os dias se senta ao lado de uma velha para esperar o ônibus. Todos os dias a velha conta a mesma história desbotada de quando era moça e trabalhava na casa do governador.

Como resposta, ela sempre lhe oferece um grande sorriso.
E algumas vezes, não importa o que está sendo dito, o que as pessoas esperam da gente é só isso mesmo: um sorriso.

Sabrina Davanzo

7 de mai. de 2009

Onde encontrar?


E porque ela queria conhecer a tranquilidade da alma saía a procura-la por toda parte. Na música, na dança, no silêncio da mãe que amamenta o filho, na euforia dos apaixonados.

Onde mora a tranquilidade que deveria residir dentro dela? Procura-a na mente ocupada pelo trabalho, nas tardes no campo, no sono pertubado.
Não acha. Não acha. Não acha. Enquanto isso, não descansa. A cabeça é uma confusão maior que trânsito de cidade grande.
Não acha. Não acha. Não acha. Não tem paz.

Sabrina Davanzo

6 de mai. de 2009

Recomeço


Contou até sete, porque acreditava que sete era um número bom.

Suspirou fundo, abriu os braços e saltou.
Queria recomeçar, mas para isso precisava chegar ao fim.

Sabrina Davanzo

Proteção


Uma chuva de desgraça caía sobre sua cabeça. Diferente de todo mundo, não abria o guarda-chuva.

Sabrina Davanzo


Espera

Ficou sentada esperando que seus sonhos se tornassem realidade.
Ninguém lhe avisou que para dar vida a algum deles, era preciso sair do lugar.

Sabrina Davanzo

4 de mai. de 2009

sobre amar


É sempre bom amar. Mas o melhor amor é aquele que dedicamos a nós mesmos, sem cobranças. O primeiro e verdadeiro amor deveria ser o amor próprio.
Assim seria mais fácil e menos doloroso se apaixonar pelo outro.

Sabrina Davanzo

Sobre traumas



Sempre tive medo de andar de bicicleta. Achava tão inseguro, desprotegido. No fundo eu me sentia mal por ser a única da turma que não desfrutava da liberdade de sentir o vento na cara, enquanto pedalava a cecizinha. Olhava, ao longe, as bicicletas coloridas se afastarem, equanto eu ficava na firmeza do chão. Hoje eu vejo que deixei de experimentar por não ter certeza de como seria. Medo da queda. Medo da dor, que talvez nunca chegasse.
Não andei de bicicleta na infância e não ando até hoje. Ainda não me acostumei à incerteza.

Sabrina Davanzo

24 de abr. de 2009

Sombras



Ele é desses sujeitinhos que sempre andam com os nervos expostos à flor da pele. Flor essa que é feita de espinhos e folhas murchas.
Briga com o trocador do ônibus. Reclama com a atendente da padaria. Discute com o vizinho de frente. Não dá um centavo para o pedinte. Sua casa, assim como sua alma, é vazia e tem a escuridão de sete palmos abaixo do chão.
O dono da banca da esquina o conhece bem e conta que a última vez que ele sorriu foi há muito tempo, ao despedir-se de sua senhora à porta de casa, quando essa saía para o trabalho. A mulher nunca mais voltou. Nem o sorriso dele.
Quem o vê julga-o mesquinho, resmunguento, mal humorado. O que ele tem mesmo é um imenso amor reprimido. Um desespero entalado na garganta. um deserto no lugar do coração.
Ele não sabe lidar com o amor que já se fez presente e hoje não mais está.

Sabrina Davanzo


21 de abr. de 2009

Obstáculo



No meio do caminho, havia uma poça d’água. Como chegar do outro lado sem passar por ela? Como passar por ela sem se molhar? E se sua perninha pequena não desse conta de ultrapassar a poça? Talvez fosse possível resolver de outro jeito. Teria mesmo que encharcar os sapatos tão confortáveis? Adiou até a noite chegar. Por fim, decidiu voltar e pegar outro caminho, sem imprevistos. Por falta de coragem, escolheu não enfrentar. Pegando um atalho, optou por não seguir em frente. “Ainda não estou pronta para o salto” pensou. E então, começou tudo de novo sem saber aonde a estrada que deixou para trás a iria levar.

Sabrina Davanzo 

14 de abr. de 2009

Decreto

E fica estabelecido que, a partir de hoje, a vida de todo indivíduo será como um campo de margarida florido.

Sabrina Davanzo

12 de abr. de 2009

Visita a casa velha

Para Fran, minha amiga de infância

Diante da casa velha e decrépita, das paredes desbotadas de emoções passadas, percebo o tanto que o tempo passou. Cortaram, primeiro o galho, e depois a àrvore toda, onde pendurei minhas pernas finas e meus sonhos de menina.
A rua, que antes parecia tão colorida e cheia de vida, a rua que antes era o meu mundo, hoje é só uma rua qualquer, com seus velho moradores. Mudaram todos. Não de casa, não de lugar. Mudaram suas fisionomia, mudaram seus modos de pensar. Envelhecem a cada carro que sobe e desce a rua que era o meu mundo. De alguns fica uma vaga lembrança do rosto de criança. Notícias de longe contam que estão bem.
E eu que achava que uma árvore deveria durar para sempre. Onde foi parar a corda que pulei? A pedra que risquei o chão para demarcar meu território na brincadeira inocente?
O tempo levou tudo embora. E a cada vez que volto, percebo que levou mais alguma coisa consigo. Desta vez foi a tintura do portão da frente e a solterisse da minha melhor amiga. Quem diria... a menina que se pendurava comigo nos muros e galhos, hoje pendura-se no pescoço do seu marido.

Sabrina Davanzo

7 de abr. de 2009

Felicidade

Mar de rosas, com ondas gigantes, que invade e inunda toda a cidade que vive dentro da gente.

Sabrina Davanzo