Em casa, à noite, ela tinha ideias geniais. Mas, pela manhã, ao despertar, elas já não estavam mais ali. Durante a madrugada, partiam silenciosamente, levando as soluções dos problemas com elas. Passou a dormir com um caderninho do lado, para que nenhuma lhe escapasse. Esperava as ideias virem frescas e quando elas se preparavam para ir embora, a menina as prendia para sempre em uma folha de papel. Tornava-as escravas de sua vontade, escolhendo a hora de colocá-las em prática. E as ideias assim aceitavam. Eram fáceis de domesticar.
Desde que descobriu essa forma de apoderar-se para sempre de seus lampejos, punha-se a pensar para onde iam as idéias. Essas que não se prendem e andam mansas na noite que se faz dia.Teriam elas um lugar para se armazenar? A fantástica terra das ideias?
Pensou nas coincidências de quando alguém via uma ideia realizada pelo outro e dizia: eu já havia pensando nisso antes... Nem imaginava que talvez aquele pensamento realmente o tivesse visitado e, desperdiçado, foi ligeiro para outro e outro e outro, até que encontrasse sua realização. Afinal, são para se tornarem reais que as ideias (as boas.. ela nem se permitia pensar nas más) existem.
Quem tem o domínio de prender ideias o faz de tal forma que se pode dizer: mas é a cara de fulano pensar algo assim. Apodera-se delas imprimindo seu estilo. Tem também, e em grande número, os desavisados que não sabem que idéias foram feitas para se prender, amarrar no caderno de anotações, e executa-las o mais rápido possível. Estão sempre a dizer por aí: eu tive uma ideia.. mas agora não me lembro mais.. eu tinha pensado...
As idéias são oportunidades de asas que pousam em todos. São inspirações que nos pegam desprevenidos, só para testarem nossa capacidade de arriscar, de correr atrás para que elas não se percam. Ela já havia aprendido a fazer uso das suas. Não queria que outros se apossassem delas. Enquanto colocava ideias no papel e as tornava realidade, ela vivia. Se aventurava seguindo suas intuições.
Sabrina Davanzo