27 de out de 2010

Queimando

.... tudo isso que lhe digo se assemelha ao fogo ávido que consome uma folha de papel, varrendo para sempre suas memórias. É rápido, intenso, triste, devastador, angustiante, mas é belíssimo porque há muita vida no desespero das chamas. Há um calor escaldante. Pior é padecer congelado...

Sabrina Davanzo

Paradoxo


É de quietude que eu preciso quando saio a gritar feito doida dentro de mim.


Sabrina Davanzo

Espanca

Quem é que nunca recebeu um duro golpe da realidade a ponto de não conseguir abrir os olhos?
Quem é que nunca tropeçou nas armadilhas do destino?
Quem é que diante da má sorte não chora feito menino?
E a gente nem sonha... Nem sonha o que se passa na lona depois de ser atingido.
Levanta... Leve... Levanta... Leva... levanta... lava...
Quem é que nunca se viu nas mãos de algo mais forte e poderoso que seus joelhos, tornando-se impossível não dobrar-se?
Atire a primeira pedra aquele que tem coração blindado, que tem o cotovelo engessado e nunca sentiu dor.

Sabrina Davanzo

26 de out de 2010

Verdadeiro ou falso?

Eu invento felicidade para me enganar. Acredito tanto que já não sei se essa alegria é de mentira ou de verdade.

Sabrina Davanzo

25 de out de 2010

Hortências e Hibiscos


Para Jéssica, Paloma, Gabriela e Lilian
Em agosto decidimos comprar pacotes para uma estadia em um Spa.
“Vamos, gente! Estamos tão estressadas”, “Vai ser legal, vamos?”
Vamos. Conseguimos agendar nossa ida – horários, compromissos, agendas apertadas- só para dois meses depois.
Quanta coisa vivemos nesse tempo...
Neste fim de semana, finalmente, fizemos nossa viagem. Foi no momento em que cada uma realmente precisa estar ali. Precisava parar, refletir, respirar.
Somos cinco. Cada uma com sua história. Famílias, amores, carreiras, pontos de vista. Cada uma traz no coração alguma aflição, embora tenhamos uma vida maravilhosa.
Nós choramos. E como. Diante de nossas fraquezas, da grandeza da vida, da natureza perfeita ao nosso redor. Choramos por dentro, por fora, de olhos fechados, embaixo d’água.
Nós rimos. O tempo todo. De tudo, para tudo, como se nada fosse capaz de nos fazer infelizes.
Tivemos conversas sérias próximas à fogueira, relembrando o passado com músicas velhas na tentativa de extrair um pouco de verdade em suas letras. Era uma forma de nos definirmos. O tempo todo cada uma de nós colocava na balança os prós e os contras de nossa própria existência.
Confinadas ali, só podíamos remoer o que nos consome e tentar achar uma explicação, uma saída mais digna.
Às vezes, ouvindo alguém falar de si, passava por nossas cabeças um certo alívio de nunca ter experimentado aquilo. “Ainda bem que nunca passei por isso...” ou talvez alguma coisa próxima da gratidão... “Nossa, a situação dela é difícil. Não posso reclamar, para mim não é assim...”
O fato é que a vida nos imprime marcas e cada um se recorda muito bem de como as suas apareceram ali.
O tempo todo agradecíamos a Deus pela comida (suco de maracujá, geléia e aquele pão de queijo), pela oportunidade de conhecer um lugar tão lindo, cercado por montanhas e uma cachoeira tímida que serviu para lavar a alma (e até tomar um caldo!).
A hora passou devagar, era só um dia, mas parecia um mês. Tivemos tempo para pensar na vida, na morte das coisas que acreditamos e, (por que não?), no quanto reclamamos sem motivos.
Talvez o segredo seja estar aberta e atenta às coisas simples da vida. Enxergar cada pedra no caminho tendo a certeza de que aquele é o lugar dela... perceber os sapos minúsculos que pululam por todos os lugares na mata enorme provando que o mundo não para, desde a água da cachoeira até os nossos sentimentos, tudo está em movimento. Esse pensamento, de alguma forma, nos deixa mais leves.
Tivemos tempo de criar um roteiro de filme de terror, imaginando todos os clichês do cinema, entre gargalhadas e lágrimas de alegria. Nossa imaginação ganhou asas, mostrando que é possível nos afastarmos dos “problemas” – Sempre vai existir uma saída!
Não poderíamos ter ido outro dia. Ainda vejo as montanhas e ouço nossas conversas e conselhos.
Lá, algumas vezes nos questionamos se Deus não manda sinais, acreditamos que é no silêncio que ele nos fala e por isso tentamos desesperadamente nos calar, ficar em paz. Mas descobri que ele também fala através das pessoas que coloca ao nosso lado, fala através dos momentos felizes, dos gritos de desabafo, das risadas escandalosas que compartilhamos com elas, comendo o melhor pão de queijo do mundo.
No sábado de manhã éramos colegas de trabalho, hoje somos amigas, cúmplices de fatos importantes na vida de cada uma.
A vida muda tudo o tempo todo, afasta e aproxima, constrói e destrói. Essa grande verdade e aquelas montanhas são coisas maravilhosas de se ver.
Ps: Hortência e Hibisco eram os nomes de nossos quartos.
Sabrina Davanzo

22 de out de 2010

Carrossel de conflitos

Vazio... alívio... saudade... liberdade... vazio... saudade... alívio... liberdade...

Nesse carrossel distinto os cavalinhos brigam o tempo todo. Chamam minha atenção para que eu me decida a qual deles devo me agarrar e não soltar até a cabeça parar de girar. Até aquela música parar de tocar.
Não sei o que fazer com eles...
Qual deles ocupa mais espaço em minha mente? Qual deles me aborrece? Qual deles me enternece?
Existe um ponto de equilíbrio que não seja o eixo em que se encontra um desses cavalinhos?

Sabrina Davanzo

20 de out de 2010

Um limão, meio limão

A Malu, do blog Pangeia de dois, fez um vídeo/postal lindo, cheio de sonhos, e me mandou lá do México de presente.
Acho que vale a pena dividir com vocês. Cliquem aqui para assistir: " que seja doce"

PS1: aproveitem para assistir aos outros também. São fofos!

PS2: obrigada, Maluzita! Lindo, lindo! Amei!

Sabrina Davanzo

19 de out de 2010

Firmamento




E um dia, não se aguentando mais no firmamento, o céu desabou sobre a sua cabeça. A lua caiu desengonçada e acabou comprimindo sua garganta com uma de suas faces pontiaguda. As estrelas, pesadas, batiam no alto de sua cabeça para depois rolarem pelo chão. Contando assim parece divertido, ter o céu aos seus pés, mas na hora foi bem dolorido. Alguma coisa ali soluçava baixinho, era um xororô só.
Depois de algum tempo, o céu decidiu que tinha que voltar para o seu lugar. Juntou as estrelas partidas, a lua pela metade e a escuridão para ir embora, mas antes, deixou sobre seus hematomas algumas nuvens carregadas que mais pareciam algodão encharcado.
Mais tarde, ela viu umas luzinhas apontarem no horizonte. Numa mistura de amarelo com laranja, as luzinhas iam tomando conta de todo o azul escuro quase preto. A lua foi repousar e as estrelas se esconderam, assim como as marcas deixadas pela noite em seu corpo.
Algumas horinhas e tudo mudou... só precisou ter paciência. E algumas nuvenzinhas, claro.

Sabrina Davanzo


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Não, eu não vou falar da sua dor aqui porque não tenho esse direito e porque para quase tudo que realmente importa nessa vida não existe palavras. Sua dor é uma dessas coisas que não se discute, mas será que irá doer menos se eu disser que vai dar tudo certo? Que daqui alguns anos a saudade nem vai doer? Que ele foi uma pessoa maravilhosa e você deve agradecer por tê-lo tido por perto?
Tornará mais leve se eu disser que dói um pouquinho em mim saber que você está passando por isso?
Eu sei. Não há nada que eu possa fazer, ainda mais com toda essa distância. Também sei que nessa altura não adianta muito qualquer coisa que eu diga, mas ainda assim, se eu pudesse te dizer alguma coisa agora, diria que ele está em paz e que existe um plano para que tudo fique bem, para que a vida continue seguindo em frente.
Isso é tudo o que eu desejo. Isso é o que tenho pedido para Deus.

Para M. e Th.

Sabrina Davanzo

Narciso




Estou tentando me ser apesar de mal me conhecer. Estou tentando fazer as pazes comigo e com as escolhas erradas.
Estou tentando me acostumar à aspereza da minha pele. Estou buscando acima de qualquer coisa perdoar-me.
Estou me comprando com livros e frases feitas. Estou me conquistando com longos monólogos diante do espelho.
Eu já não me assusto e arrisco a dizer que mais um pouco de convivência acabo me apaixonando por mim.

Sabrina Davanzo

17 de out de 2010

Doação


Existe uma doença muito comum que muitos não reparam e outros tantos ignoram, mas ela está presente em quase todos. Trata-se de amor reprimido. Sabe aquela vontade de dar o melhor de você, de amar, de oferecer carinho e não ter a quem entregar? Dentro da gente tudo isso vai virando um peso, quase arrebenta o peito querendo sair para fora, explodir em outro coração.
Não tem remédio que cure essa doença até que apareça alguém disposto a receber tudo o que você tem para doar. E o pior é que temos a impressão de que as pessoas estão procurando por isso, quando na verdade a maioria traz o peito em chamas. Parece não ter solução. Eu mesma estou padecendo desse mal e espero na fila de doadores a minha vez de fazer alguém feliz.

Sabrina Davanzo

15 de out de 2010

Relógio



São tantas as minhas horas de insônia que até decorei o exato momento em que as lágrimas da madrugada se
condensam em orvalho.

Sabrina Davanzo

11 de out de 2010

A busca

Todos os dias, nos mais diversos lugares e momentos, tenho procurado por você.
Pela manhã, ao despertar, te procuro na vontade de começar mais um dia, nas pombinhas que ficam ciscando a telha, no quarto desarrumado que deixo para trás.
Procuro-o na água quente que escalda minha pele, meu sono e leva embora um pouco da preguiça.
Saio à rua procurando em cada rosto desconhecido algum sinal teu.
Tenho te procurado na cadeira vazia ao meu lado na sala escura do cinema.
Tenho te procurado nas crianças que brincam despreocupadas nas praças movimentadas e nos casais apaixonados que não percebem essa agitação porque para eles o tempo parece ter parado.
Tenho te procurado na chuva que vem de encontro à janela da sala. Procuro-o nos sorrisos e palavras de carinho de cada amigo e também em seus puxões de orelha e risadas escancaradas.
Procuro-o durante a minha música preferida que toca no show da banda que gosto.
Tenho te procurado por toda a parte, nos livros, nos diálogos sem sentido, nas minhas horas de inquietação, nos origamis, nos desenhos que tenho tentado ilustrar, em cada letra que escrevo e nos passos de balé que ainda arrisco, em cada ruga que nasce em meu rosto.
Procuro-o no silêncio do telefone que não toca, nas reuniões do centro espírita.
Tenho te procurado na estrada que o carro desliza para me levar para casa, nos Ipês que enfeitam o caminho.
Procuro-o no raio de sol que incomoda meus olhos e na lua que ilumina a escuridão da terra.
Tenho te procurado no olhar de saudade do meu cachorro quando retorno depois de meses. Tenho te procurado no abraço curto que minha mãe me dá e nos passos mais curtos ainda que a minha afilhada ensaia.
Procuro-o a todo momento até no amor que acabou, até no pão com manteiga que como enquanto penso onde estarei daqui alguns anos.
Tenho te procurado no caminho que o ônibus faz quando saio do trabalho, na distância que há entre mim e aqueles que trago no coração.
Tenho te procurado nas notícias de milagres na TV.
Como sei que você não habita somente a luz, procuro-o também na solidão da cama vazia, entre meus pesadelos, nas lágrimas que brotam contra minha vontade, nas experiências e dores de quem amo.
Tenho te procurado nas tragédias que assolam famílias, vidas.
Procuro-o nos jovens que vejo abandonados à própria sorte nas ruas, naqueles que se prendem em vícios e nos velhinhos que repousam, solitários, em algum canto. Procuro-o na culpa de quem errou e se arrependeu. Procuro-o nas mãos que se estendem pedindo uma moeda quando na verdade desejam uma outra vida. Procuro-o nos leitos de hospitais e naqueles que carregam por toda a existência as marcas de uma deficiência.
Não há sequer um dia em que eu não queira sentir sua presença, saber onde você está, Deus. Saiba que eu não vou desistir. Vou viver te procurando, porque eu sei que você também quer me encontrar.

Sabrina Davanzo

6 de out de 2010

Por nada


Anda tão ausente de si mesma que corre o risco de se encontrar em alguma rua agridoce da solidão.

Traz o queixo colado ao peito e o olhar pregado à rua. Sempre sorri quando vê passar uma barata apressada em direção ao lixo na calçada. Para ela, isso significa que alguma coisa no mundo faz sentido, existe um motivo.

Sabrina Davanzo