31 de mai de 2009

Sobre letras e barcos

Barquinho de papel desliza na água
leva embora o ditado escrito com tanto esmero.
Cada letra bordadinha em seu devido lugar,
Encantava a professora
era bonito de se olhar.

Podia ser um barquinho de álgebra, ou ciência.
Mas seria muita responsabilidade para a embarcação.
Imagina informar os passageiros
sobre raiz quadrada de setenta e oito
ou, pior, contar sobre as células do corpo.

Melhor um barquinho pautado, bem aportuguesado
que sabe de cor e salteado
qualquer palavra que lhe perguntar.

Essa viagem, tem uma tripulação especial.
Junto com o barquinho
vai o trema que caiu em desuso e depressão,
e o acento de ideia, que não tem mais utilização.
Só ficou de fora o hífen, que com tanta confusão,
esse o barquinho não leva não.

Sabina Davanzo

Texto postado no Coletânea Artesanal que, este mês, tem o tema Sobre letras e barcos.


29 de mai de 2009

Relógio


De repente, o tempo começou a andar devagar. Cada segundo é uma eternidade. Cada hora dura mil vezes mais do que deveria durar. Parece que os ponteiros se apaixonaram pelos números e não querem sair do lugar. A noite não tem fim e quando vem o dia, começa toda a lentidão de novo. 
Passa, tempo... Passa que eu também quero passar. 

Sabrina Davanzo

27 de mai de 2009

Sobre jujubas e as delícias da vida



-Fica sempre esse gosto de quero mais quando acaba? Perguntou se pendurando no balcão, tentando enxergar o velho vendedor. 
-Somente quando foi muito bom.  
-Mas então por que acaba? 
-Para que você possa experimentar outros sabores. 
- E eu posso querer sempre do mesmo?
- Se quiser, você pode. Escolha o seu sabor preferido e experimente de novo e de novo e de novo. 

Sabrina Davanzo 



Porque 10 é número bom!


Na escola, quem tira 10 é bom aluno. Nas escalas imaginárias você sempre analisa algo de 0 a 10. 10 reais é uma boa quantia para se ter na carteira. Quando alguém é muito legal, sempre podemos recorrer à velha gíria " fulano é nota 10".

Hoje, o inverso também é 10. 10 mil visitas. Isso é tão bom! É como se eu tivesse tirado a nota mais alta, minha escala chegasse ao máximo e de quebra eu tivesse esse dinheiro para gastar com chocolate e sorvete, tudo ao mesmo tempo.
Por 10 mil vezes o inverso foi visto, lido, admirado.
Quero muito agradecer a todos vocês que aparecem por aqui há oito meses, chegaram agorinha, passam de vez em quando, visitando ou deixando comentários que eu adoro receber.
Obrigada! Vocês também são 10!

Sabrina Davanzo

26 de mai de 2009

Desculpas


E ela, que só queria ser boa e fazer o bem, vezenquando maltratava alguns corações. 
Doeria menos se ela explicasse que não teve a intenção? 

Sabrina Davanzo 

25 de mai de 2009

Primeiro Ato


Ficou ali, observando o passarinho na gaiola que voava pra aqui e pra ali todo atarefado. E comia. E cantava. E bebia água e voava baixinho e curto de novo.
- Não te cansas essa monotonia? Quanto tempo ainda há de aguentar, até que te tornes livre para viver?
O passarinho estufou o peito, afinou o bico e respondeu:
- Ora, pois eu já vivo. A vida é peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, pouco importa onde instalaram o meu palco, trato logo é de ser um bom ator.

Sabrina Davanzo

Furacão


Tem horas que se sente na obrigação de ser feliz. É quando menos consegue.
Para ela a felicidade não é inata, inerente, não vem fácil. É algo que deve ser buscado. Uma busca sem fim, que cansa e no final só encontra frustração e desespero.
É aí que vem o choro e a vontade de parar de buscar. Mas não para. É anciosa demais para sentar e esperar.
Quando era pequena era mais fácil. Tinha um passarinho que cantava dentro dela e a liberdade dele reinava.
Por dentro, hoje, ela só tem um furacão que consome tudo. Que faz barulho. Que assusta, mas não mata.

Sabrina Davanzo

22 de mai de 2009

?

Sabe quando você não sabe o que fazer? O que você faz?

Sabrina Davanzo

21 de mai de 2009

Recordação



Numa tarde de sol, do alto dos meus três anos, eu via pela janela um senhorzinho que subia a rua puxando uma zebrinha por uma corda. Os dois subiam mansos, com aquela preguiça que um sol quente traz.
O senhorzinho, me vendo pendurada na janela, abriu um sorriso e perguntou:
- A mãe tá aí?
Não obtendo nenhuma reposta minha, tocou a campanhia, que foi atendida por minha mãe. 
Depois de alguns dedos de prosa ela me chamou: 
- Vem tirar foto! 
E foi assim que nasceu uma linda recordação de minha tenra idade. No passeio de casa, com os raios de sol iluminando minha alegria e excitação, minha mãe me sentou no lombo da zebrinha, e o senhorzinho registrou o momento em sua câmera fotográfica.
Só Muitos anos depois é que fui perceber que a zebrinha na verdade era uma mulinha com listras pintadas à mão. Achei engraçada a situação... Mas para mim, continuou sendo uma zebrinha. Dessas que vem lá da Savana Africana para tirar retrato com a gente. 

Sabrina Davanzo 



16 de mai de 2009

Discontos de fadas


Quando era pequena adorava ouvir o vinil azul do Patinho feio que ficava na casa da minha vó. Não me lembro de ter visto filme, desenho, livro dessa mesma história que tenha me marcado tanto. O narrador, com sua voz grave, denotou uma feiúra para o patinho que imagem nenhuma poderia representar. E como isso me entristecia. Como pode ter sido tão humilhado, tão desprezado? Afinal, feio ou bonito, são as diferenças que nos fazem ser quem nós somos.
Claro que, naquela época, eu não formulava esse raciocínio em minha cabeça, mas sabia que isso era o que me incomodava. E se eu também fosse feia? Nunca seria aceita? O pobre patinho, que na verdade era um cisne, enfrentou até bicadas de galinhas. Sentia profundamente aquelas bicadas. Chegava a imaginar a dor do coitado. Com lágrimas nos olhos, ouvia o canto das avezinhas que entoavam com suas vozinhas finas a canção “nós somos as garcinhas, somos umas gracinhas...”. Imaginava se elas eram mesmo tão bonitinhas e quanto devia partir o coração do patinho ouvir isso. Ele que era só um cisnezinho novo que nem conhecia o mundo, que nem conhecia a si próprio.
Ainda bem que no final tudo se resolvia. Sentada ao pé da vitrola, sem quase nem respirar para não fazer barulho e perder a história, eu realmente sentia um grande alívio quando a tormenta passava. Quando terminava o vinil, eu o pegava e ficava admirando. Como cabia uma história tão pesada como aquela daquele disquinho azul claro? Guardava na capinha rota de nem sei quantos anos. Sempre pensava que um dia ouviria de novo. No fundo, queria que na próxima vez a história tivesse mudado. Queria que o patinho não sofresse tanto. Já naquela idade eu tentava aprender formas de não enfrentar a dor.

Sabrina Davanzo

Texto postado originalmente no blog Discontos de fadas da artista plástica Adriana Peliano.

14 de mai de 2009

Manisfesto:

Eu quero ter alguém.
Alguém que queira dividir comigo a cama,
a casa, o último pedaço de pizza amanhecida.

Eu quero ter alguém.
Alguém que divida comigo a vontade de conhecer a Europa,
de passar o dia deitado na grama do parque,
de ter um filho.

Eu quero ter alguém.
Alguém que compartilhe comigo sorrisos e decepções
que tenha sonhos
e que eu possa estar incluída em alguns deles.

Eu quero ter alguém.
Alguém que seja personagem de filme romântico,
que erre mas, acima de tudo,
tenha um coração puro.

Eu quero ter alguém.
Alguém que compartilhe comigo
um cantinho pequeno e aconchegante
que vai acomodar tudo o que a gente conquistar.

Eu quero ter alguém.
alguém que ao ver de manhã
sorrindo para mim eu possa pensar:
eu te encontrei!

Eu quero ter alguém.

Sabrina Davanzo

Floral

Tenho uma amiga que está tomando gotinhas de felicidade. Ela compra na farmácia um vidrinho todo cheio. A receita? Uma mistura de flores e cores.
Gostaria que as farmácias também vendenssem comprimidos de sabedoria, sprays de humildade, pomadas de carinho. Seria bom se as dores pudessem ser curadas assim.
Ah! E claro, tudo baratinho para todo mundo ter acesso. Desconto garantido pelo programa do governo: Receita para vida feliz.

Sabrina Davanzo

10 de mai de 2009

um pouco de mim


Eu sou criança, mimada, boba. 
Não coloco malícia onde não tem. 
Onde tem, não enxergo. 
Parto do princípio de que todos são 
como eu: simples. 

Também excomungo, como o Papa, 
quando as coisas ou pessoas
não são como eu gostaria. 
Mas um minuto depois 
já sou eu de novo: doce. 

a vida coloca monstros diante de mim.
Não sei como lidar com eles.
fico com vontade de chorar
mas lembro que tenho que ser como todos: forte. 

Fecho os olhos, aperto bastante. 
Quando os abro o monstro é menos assustador. 
Chuto sua canela, "sai da frente" 
e sigo como eu sou: feliz. 

Sabrina Davanzo 

8 de mai de 2009

Sorria


Todos os dias se senta ao lado de uma velha para esperar o ônibus. Todos os dias a velha conta a mesma história desbotada de quando era moça e trabalhava na casa do governador.

Como resposta, ela sempre lhe oferece um grande sorriso.
E algumas vezes, não importa o que está sendo dito, o que as pessoas esperam da gente é só isso mesmo: um sorriso.

Sabrina Davanzo

7 de mai de 2009

Onde encontrar?


E porque ela queria conhecer a tranquilidade da alma saía a procura-la por toda parte. Na música, na dança, no silêncio da mãe que amamenta o filho, na euforia dos apaixonados.

Onde mora a tranquilidade que deveria residir dentro dela? Procura-a na mente ocupada pelo trabalho, nas tardes no campo, no sono pertubado.
Não acha. Não acha. Não acha. Enquanto isso, não descansa. A cabeça é uma confusão maior que trânsito de cidade grande.
Não acha. Não acha. Não acha. Não tem paz.

Sabrina Davanzo

6 de mai de 2009

Recomeço


Contou até sete, porque acreditava que sete era um número bom.

Suspirou fundo, abriu os braços e saltou.
Queria recomeçar, mas para isso precisava chegar ao fim.

Sabrina Davanzo

Proteção


Uma chuva de desgraça caía sobre sua cabeça. Diferente de todo mundo, não abria o guarda-chuva.

Sabrina Davanzo


Espera

Ficou sentada esperando que seus sonhos se tornassem realidade.
Ninguém lhe avisou que para dar vida a algum deles, era preciso sair do lugar.

Sabrina Davanzo

4 de mai de 2009

sobre amar


É sempre bom amar. Mas o melhor amor é aquele que dedicamos a nós mesmos, sem cobranças. O primeiro e verdadeiro amor deveria ser o amor próprio.
Assim seria mais fácil e menos doloroso se apaixonar pelo outro.

Sabrina Davanzo

Sobre traumas



Sempre tive medo de andar de bicicleta. Achava tão inseguro, desprotegido. No fundo eu me sentia mal por ser a única da turma que não desfrutava da liberdade de sentir o vento na cara, enquanto pedalava a cecizinha. Olhava, ao longe, as bicicletas coloridas se afastarem, equanto eu ficava na firmeza do chão. Hoje eu vejo que deixei de experimentar por não ter certeza de como seria. Medo da queda. Medo da dor, que talvez nunca chegasse.
Não andei de bicicleta na infância e não ando até hoje. Ainda não me acostumei à incerteza.

Sabrina Davanzo