27 de fev de 2009

De: Para:


Fico feliz que esteja se divertindo.

Estou imaginando o quão lindo é ter esse confete aí molhado por teu suor.
Só te peço que não demores mais.
Faz falta você aqui. Sabes bem que só sei ser feliz ao seu lado.
Vamos continuar a nossa festa. Aquela, de outros carnavais.
Volte logo. Não quero perder mais tempo longe de você.

Sabrina Davanzo

De: Para:


Aqui ainda é carnaval.

Se deixar, vai o ano todo assim.
Tão bom. Faz falta uma festa no coração de vez em quando.
Está muito calor. Deve ser essa agitação.
Tenho um confete rosa grudado na pele ainda. Não tiro.
É uma prova de que estou sendo feliz. Será que daqui a pouco posso não ser mais?
Nunca sei quando vão desligar o som...
Preciso ir. Começou outra canção. Vou me deixar levar por ela.

Sabrina Davanzo

Escrevo assim...



Eu faço poema
como quem canta com alma pequena
canções que um dia de longe ouviu

Eu faço poesia
como quem diz sem querer dizer
palavras, fatos que nunca chegaram acontecer

Eu faço versos
como quem perde a rima, desafina
não conhece o fio
que está a tecer

Eu conto prosa
como quem estende uma rosa
sem de fato querer oferecer

Por fim, não faço é nada
como quem paralisa, enlouquece
mata dentro de si
palavras que soariam prece


Sabrina Davanzo


19 de fev de 2009

Barquinho

Barquinho de papel não pode com uma enxurradinha. 
Onde já se viu barco que não pode molhar? 
Tem gente que é de açúcar. 
Não pode com um chuvisqueirinho. Desmancha. 
Onde já se viu gente não se aguentar? 
E lá vai o barquinho... 
que agora é só folha enxarcada. 

Sabrina Davanzo

18 de fev de 2009

Assunto sério

Tive uma conversa comigo mesma. 
Decidimos que eu deveria ser feliz. 
O problema é que não sei por onde começar. 
È possível ser feliz sozinha? 
Terminei a conversa com a sensação de que não me entendo. 

Sabrina Davanzo 

17 de fev de 2009

A borboleta


Borboleta feliz
voou, voou,
pousou no meu ombro
e me beijou

Que beijo gostoso
pensei comigo
tão bom quanto
abraço de amigo

Borboleta triste
chorou, chorou,
sentada comigo

Que choro doído
pensei comigo
Choro sofrido
igual ao de amor
não correspondido

Sabrina Davanzo


16 de fev de 2009

Sobre a solidão

Seca teu pranto
em algum canto
há quem se preocupe com você.

Recolhe tuas lágrimas
sal caído na terra
que de alguma forma
alguém por ti encerra
um grande bem-querer.

Confia.
Ninguém nesse mundo é tão sozinho
a ponto de ter em sua carne um espinho
e nenhuma ajuda para remover.

Sabrina Davanzo

14 de fev de 2009

Desejo

Queria ser como a Fênix...
que renasce, impecável, das cinzas.
Não posso. Sou um ser humano.
Uma vez no fogo,
fico para sempre com profundas cicatrizes.

Sabrina Davanzo

13 de fev de 2009

Dor de ser


Vez ou outra agradece por ser quem é. Poderia ser tantas outras: mais feia, mais bonita, mais controlada, mais louca. Mas não. Sempre foi e sempre vai ser ela mesma. Única em suas excentricidades. Segue a novela. Toma analgésico para dores de cabeça imaginárias. Dorme de meias coloridas para esquentar os pés.
ser do seu jeito é mesmo trabalhoso. Não sai da linha.
Leva o lixo sempre às oito e trinta e dois. Acorda sete e quinze. Nenhum atraso. Tudo para não decepcionar o grande criador. Ele tem planos para ela. Deve ter. É o que ela imagina.
Tempos atrás ele lhe impôs uma gastrite.
Dor funda. Que torce. torce para passar logo. Cada um passa o que tem que passar. Desde já fica estabelecido que essa dor nas vísceras ninguém passa por ela.
Já teve um dia que ela quis não passar.
Ficou o dia todo sentada no banco da praça não vivendo. Teve medo de que alguém (uma voz acusadora) viesse reclamar com ela:"Moça! você não está sendo... seu dia está passando e a senhorita não está vivendo!" Ninguém. Deve ser porque passar o dia sentada querendo não ser é uma forma de vida também.
É. É bom ser do seu jeito.
Já se acostumou com seu sorriso amarelo e com seu olhar desviado. Mesmo que quisesse, não saberia ser outra.
Então repete para si mesma:
"A criação é perfeita. A crianção é perfeita. A criação é perfeita..." Enquanto dói o estômago.

Sabrina Davanzo




Confiança

Andar de olhos fechados
sem medo de levar uma trombada.
Coração cheio de certeza.
Verbo acreditar de mãos dadas com a gente.

Sabrina Davanzo

10 de fev de 2009

sobre despedidas



Acordou de um sobressalto no meio da noite.
Na penumbra do quarto, bem perto da caixa de brinquedos, o viu passando bem devagar com sua casa nas costas.
- Vais embora?
- Desculpe. Não quis incomodá-la. Sim. Já é tempo.
- Não gostates da minha companhia?
- Muitíssimo. Mas devo partir. Outros amigos me esperam.
- Ias sair sem dizer adeus...
- Não me agradam as despedidas. Nunca lhe esquerecei. És uma grande amiga.
- Então por que não ficas mais?
- Não devo. Cada um tem o seu tempo na vida do outro. Agora, fiquemos com a ternura de uma grande amizade.
- Pegaste tudo? Não sentirás frio? Chove lá fora...
- Sim. levo tua compreensão e teu carinho. Me basta.
- Já os tem. Sabes que sim. Para sempre.
- Então me satisfaço. Vou feliz e sem culpa.
- Te gosto muito. Sentirei saudades.
- Eu também. Ainda nos resta as lembranças. Elas nos confortam.
- Cabe tudo nesta tua casa?
- Cabe toda a liberdade que preciso.
- Não te demores mais. Bom ter você em minha vida. Fique em paz.
- Tu também. Desejo-lhe bons recomeços.

Adormeceu.
De manhã, nenhum sinal.. Saiu tão em silêncio como chegou.

Sabrina Davanzo





9 de fev de 2009

Bicho de estimação



E a menina cismou que queria um elefante. 
Pedia à mãe insistentemente: 
- Me dá um elefante.. me dá um elefante. 
Gostava da sua calma e tranquilidade. 
Um bicho tão grande e tão à vontade. 
Não impõe seu tamanho. 
Não se incomoda com seu desajeito. 
É o que é. Só um elefante. Um grande elefante. 
Cinza.. mas nem por isso, triste. 
Ah.. como ela gostava de elefantes. 
passos firmes e lentos. Sabem onde pisam. 
tão pesado e ao mesmo tempo tão delicado. 
- Sim, mamãe. Me dá um elefante. Um desses de zoológico ou circo. 

Sabrina Davanzo 



O céu em mim

Hoje quando acordei o dia era cinza, ventava e o ar tinha cheiro de chuva.
Dentro de mim o sol brilhava e tudo era de um azul indescritível.
O céu de verdade não afetava a paz do céu que havia em mim.
Então, aos poucos, o que estava dentro foi também estando fora.
Acho que é a força do pensamento positivo.

Sabrina Davanzo

7 de fev de 2009

Insegurança

Vontade de ficar agarrada ao que está firmemente pregado. 
Caminho no escuro. 
Medo de deixar o conforto. 
Pés querendo ser raízes. 
verbo ir implorando para ficar. 

Sabrina Davanzo

6 de fev de 2009

Dança comigo?


Porque ela queria alguém capaz de acompanhar seus passos. Seus ritmos. 
Queria alguém que entendesse suas fraquezas.
Então ele apareceu. Lindo e tão parecido com o que ela sonhava. 
E ele a aceitou mesmo conhecendo suas medidas. 
Mesmo sabendo que vez em quando o sol não aparecia para ela. 
Sim ele era capaz de acompanhar seus passos. 
Sim ele sabia esperar pela primavera que havia em seu sorriso.  
" Dança comigo?" 
 Ele a conduz da melhor forma possível. Pintou um arco-íris em sua vida. 
Ela o ama. Impossível viver sem sua ternura. 

Sabrina Davanzo 



3 de fev de 2009

E um dia você se torna gente grande...



E chega um dia que a gente tem que crescer. Crescer não só no tamanho mas, principalmente, dentro da gente. Esse crescer traz com ele um outro tempo: o tempo de ser gente grande.
Ser gente grande significa que a maior parte das coisas que você fazia antes, não poderá fazer mais.
É uma fase que exige responsabilidade e independência. Provavelmente, você não contará mais com o colo da mãe nas horas que você mais precisar. As dores de amor deixam de ser mais cinematográficas para serem mais reais. As cicatrizes vão ficando cada vez mais profundas. As ligações cada vez mais superficiais.
Ser gente grande significa contar só com você mesmo para conseguir o que quer.

Seus problemas serão maiores que enfrentar um boletim vermelho. Suas afirmações e gestos perdem a inexperiência e passam a ter peso e conseqüência para outras pessoas.
Fazer manha já não tem mais o mesmo efeito e certamente o tornará ridículo ou “infantil”.
Ser gente grande é tão difícil que existe um monte de pessoas tentando adiar essa hora esquecendo que o tempo é inexorável, não espera por ninguém.
Outras não conseguem administrar a ideia e vestem a carapuça da idade sem deixar espaço para a criança que foi.
Ser adulto nos torna aptos a muitos assuntos proibidos e que ambicionamos quando pequenos. Mas quando se torna uma pessoa grande, a matemática de perdas e ganhos se torna mais clara (e menos aceitável).

Ganha-se autonomia e perde-se uma das melhores fases da vida (que passa a ser boas lembranças).
Em alguns casos, perde-se o melhor amigo, a turma da infância que, assim como você, cresceu e foi seguir sua vida. Perde-se o carinho divertido com a família. Ganha lugar um amor de adulto-para- adulto.
Você ganha a liberdade ter pensamentos calculados mas perde a inocência e simplicidade que só quando se é pequeno tem.
Abre-se uma conta no banco e com ela abre-se mão dos seus brinquedos, da ciranda.
Eu não queria crescer. Não queria ter que assumir por minha conta o controle da minha vida.

Tenho medo desse tempo que passa levando com ele a elasticidade da minha pele e para cada vez mais distante minha época de criança.

Sei que dentro de mim, ainda não decidi se quero ser menina ou mulher (apesar de não ser uma opção).
Minha vontade é de que pudesse haver um meio termo.
Essa vontade também vai passar daqui algum tempo. Isso se chama maturidade. Uma coisa maior que ser gente grande.

É a maturidade quem vai levar embora a dor de não ser mais criança. É ela quem vai, finalmente, me fazer aceitar que não posso mais deixar a vida me levar e que, obrigatoriamente, eu mesma devo conduzi-la.


Sabrina Davanzo


1 de fev de 2009

Direção contrária


Saudade...
Vontade de voltar ao passado mesmo estando no presente.
Vontade de olhar para trás mesmo precisando seguir em frente. 

Sabrina Davanzo



Sem palavras




Queria enviar uma carta. Uma folha frágil que atravessaria um oceano para chegar ao seu destino.  Uma simplicidade em meio às mensagens instantâneas.  Pegou o lápis e o papel. 
Tentou falar sobre saudade e distância. Melhor não... isso poderia lembrar que o que existe agora é só falta.  

Quis comentar sobre o tempo. Estações desarranjadas. Como pode, frio em pleno verão? Soaria muito artificial... uma carta indignada com a meteorologia quando se havia tanto a falar sobre sentimentos.  
“ Ainda lembro daquele dia...”  será que voltar ao passado seria uma boa forma de  se falar sobre o presente?  Não sabia por onde começar. 
Difícil colocar os pensamentos na ponta do lápis.  
Queria contar com andava a vida, como estava se adaptando.... Mas, e se não fosse de seu interesse saber? 
“Como vai?”... Um cumprimento é uma boa forma de dar início a uma conversa... e se não estivesse interessado em descrever como ia?  Poderia nem estar indo.  
Não sabia o que dizer. Chorou. E sobre a folha suas lágrimas ficaram impressas. Poesia viva que sai da alma.  
Guardou em um envelope... enviaria um papel marcado pela mais pura impotência, diante do não saber como se expressar. 
Finalmente conseguira através de pequenas gotas o que as letras teimavam em não dizer.  Falou sobre tudo, sem dizer absolutamente nada.  
Ainda viveria muitos momentos assim pela vida. Momentos (alegres ou tristes) que não são traduzidos por palavras e sim pelo coração.    

Sabrina Davanzo